10 perguntas a Diogo Montalvão

Published on April 6, 2023

Diogo Montalvão é Head (Presidente) do Departamento de ‘Design’ e Engenharia da Universidade de Bournemouth, no Reino Unido. É também Professor Associado em Dinâmica Estrutural, sendo que a sua actividade de investigação se tem focado sobretudo em análise modal experimental, fadiga de materiais não-lineares, e testes de fadiga acelerada por ultrasons. Lidera um laboratório de investigação que foi financiado pelo ‘Research England’ em 2021, o ADDISONIC – ‘Advanced Materials Ultrasonic Fatigue Prediction and Life Extension’.

Embora a sua formação seja muito ‘monótona’, tendo tirado Licenciatura (2001), Mestrado (2003) e Doutoramento (2010), tudo em Engenharia Mecânica, pelo Instituto Superior Técnico, em 2016 obteve um ‘Executive MBA’ pela Hertfordshire Business School no Reino Unido.

A sua dedicação ao Ensino foi já reconhecida com alguns prémios, e foi recentemente convidado para ser ‘Chair’ (Presidente) da ‘Design Challenge Competition’, uma competição Universitária organizada pelo IMechE (Instituto de Engenharia Mecânica, uma das mais prestigiadas ordens profissionais no Reino Unido), pela região de Wessex. No âmbito do voluntariado, organiza, desde 2021, ‘Masterclasses’ com a Royal Institution em ‘Computer Science’ para alunos do 9.o ano. Estas aulas incluem actividades práticas e divertidas com o objectivo de promover as áreas STEM (‘Science, Technology, Engineering and Maths’) junto de estudantes, sobretudo daqueles de meios mais desfavorecidos e raparigas que normalmente não considerariam o ensino superior ou a Engenharia como uma via para os seus futuros profissionais.

É também colunista convidado do jornal Observador, onde escreve artigos sobretudo sobre a sua visão do Ensino Superior em Portugal, entre outros temas.

Porquê o Técnico?
O IST era a mais prestigiada Faculdade de Engenharia em Portugal em 1995, ano em que ingressei em Engenharia Mecânica. Por outro lado, tendo um Pai, Avô e dois Tios que por lá passaram, essa parecia ser a ordem natural das coisas, pois via que para eles, terem sido alunos do IST, era motivo de orgulho e diferenciação. O IST dá aos seus graduados não só acesso ao conhecimento mais actual e avançado em Engenharia, mas sobretudo capacidade de análise crítica e de desenvolvimento futuro independente, razão pela qual um licenciado do IST tem à sua frente uma carreira que passa por muitas áreas que não só a Engenharia, nomeadamente de gestão e de liderança. Uma Licenciatura no IST é uma verdadeira ‘licença para aprender’.

O que mais leva dos seus tempos de Técnico, nas aulas ou fora delas?
Amigos! Muitos, e bons. Ainda hoje, passados mais de 20 anos desde que nos licenciamos, o meu grupo mais sólido de amigos vem dos tempos do IST, com quem me encontro e falo regularmente. Infelizmente, no terceiro ano perdi a minha Mãe, a quem era muito ligado. Foram os meus amigos, sobretudo do IST, que me ‘seguraram’ (não, não estou a dizer que colocaram o meu nome nos trabalhos sem eu fazer nada!), contribuindo para restaurar a minha saúde mental rapidamente. No Técnico há um grande sentimento de união e pertença.

Qual foi a melhor parte do seu curso? E a mais desafiante?
Esta pergunta podia dar uma tese. Diria que o Técnico é um paradoxo. Por um lado, integra-nos numa comunidade de pares (que se tornará numa rede de contactos importantes no futuro) que são os melhores dos melhores dessa geração. Por outro lado, isto coloca-nos perante o desafio de, de repente, sermos confrontados com a realidade de que afinal há outros (e tantos) tão bons ou melhores que nós: deixamos de ser rapidamente o melhor da turma (ou até da Escola) para passarmos a estar apenas na média. Isso permite que sejamos postos à prova e ‘testados’ no limite, mas também que aprendamos muito com os outros e mais sobre nós mesmos, o que contribui imenso para o nosso amadurecimento e desenvolvimento pessoal.

Qual é o seu lugar preferido no Técnico e porquê?
Tem que ser a esplanada do bar de Civil. Era aí que convivíamos, conversando e jogando às cartas nos furos ou após as aulas. Uma parte importante da vida Universitária passa também pela parte comunitária, pela socialização. Não se esgota nas aulas e na aquisição de conhecimento.

Pode falar-nos um pouco sobre o início do seu percurso profissional?
Embora a minha carreira tenha sido sobretudo no meio académico, comecei-a, ainda estudante, como desenhador (técnico) para a Joca Metalomecânica no âmbito da certificação ISO 9001 (estava no meu 4.o ano do curso). Depois, já como aluno do 5.o ano, fui trabalhar para a indústria ferroviária em Portugal através do MIIT (Manutenção Industrial Informatizada e Tecnologia) nas instalações da ADTranz/Bombardier Transportation onde, entre outras coisas, desenvolvi planos de manutenção centrada na fiabilidade para o Metro do Porto. Já depois de me formar, apareceu uma oportunidade de me tornar docente do ensino superior, que era algo que eu queria muito experimentar, neste caso no Instituto Politécnico de Setúbal. Isso deu-me oportunidade de participar em trabalhos de consultoria fascinantes na área do controlo de condição, nomeadamente para as OGMA, onde participei em ensaios de vibração em aeronaves militares C-130 em vôo. Foram tempos muito bons com uma variedade de experiências que se viriam a revelar fundamentais para eu perceber desde cedo que um Engenheiro pode desempenhar uma diversidade de funções que vai para além daquilo que normalmente imaginamos, desde o meio académico ao empresarial.

Qual foi a decisão mais difícil que alguma vez teve de tomar?  
A decisão mais difícil que tive de tomar do ponto de vista profissional foi emigrar de forma mais ou menos definitiva. Na altura a minha aspiração era ser Professor no Técnico. Já tinha longa experiência como docente no Politécnico de Setúbal, onde tanto aprendi e que tantas alegrias me deu, mas como diz o ditado, ‘o bom filho a casa torna’. Assim, em 2010, quando acabei o Doutoramento, candidatei-me a uma ‘professorship’ como Professor Auxiliar no âmbito do programa de Doutoramento MIT-Portugal em ‘Engineering Design and Advanced Manufacturing’. O objectivo era ir para o MIT (Massachussets Institute of Technology) em Boston, no Estados Unidos, por um mínimo de 6 meses, trabalhar com um grupo, líder mundial em Engenharia de Sistemas. Estava muito entusiasmado. Infelizmente, a crise de 2011 que se sucedeu à de 2008 e que levou também à queda de um Governo, significou que não havia condições para suportar a minha ida para os Estados Unidos, nem garantias de que me iam renovar o contrato. Assim, achei que tinha chegado a hora de fazer as malas. Candidatei-me para várias posições na indústria e academia, desde o Canadá à Austrália, mas foi o Reino Unido que acabou por me acolher. Emigrar exige muita perseverança, mas estar num País perto de casa facilitou muito esta decisão. Por outro lado, foi revelador confirmar que a formação que tinha recebido no Técnico era comparável à das melhores Universidades do Mundo, sobretudo pela versatilidade, que é talvez uma das maiores mais valias que eu trazia comigo.

Atualmente, como é um dia típico para si?
Sendo Engenheiro, Professor Universitário, e Presidente de um Departamento, os meus dias dividem-se na fusão de três áreas fundamentais: educação (por via das aulas que lecciono), investigação científica colaborativa (por via do laboratório que estabeleci, o ADDISONIC, em que temos também parceiros empresariais), e gestão (por via da minha posição de liderança no departamento).

Que conselhos daria aos estudantes atuais?
Todas as funções que desempenho actualmente – educação, investigação e gestão - têm algo em comum: a interação e o diálogo permanentes entre muitas pessoas de variadas origens. Por isso, o melhor conselho que posso dar é para terem confiança em vocês mesmos valorizando, sempre, o outro. Vivemos num Mundo colaborativo, mas cheio de diversidade, e ao reconhecer isso só temos a ganhar. Vocês são os líderes do futuro, pelo que perceber e respeitar todas as pessoas no contexto de uma organização, desde a base até ao topo da pirâmide, é fundamental. As organizações são constituídas por pessoas, e todas elas merecem ser tratadas com igual respeito e consideração profissionais, independentemente das suas origens. Com essa atitude positiva e de reconhecimento perante os outros, vão certamente ser surpreendidos, muitas vezes, com respostas de voluntarismo quando mais precisarem e de onde menos esperam.

De que mais se orgulha na sua vida?      
Esta é uma pergunta à qual não sei responder em absoluto. Mas sem dúvida que ser Engenheiro Mecânico pelo Técnico foi algo que sempre quis. Nunca quis ser outra coisa, nem mesmo em criança. Portanto, de certa maneira, o facto de fazer parte desta comunidade, do Técnico ser a minha alma mater, e de ser um dos seus alumni, é algo que me enche de orgulho.

Tem uma citação ou frase favorita?
São tantas! Mas dado o contexto desta entrevista, a frase que escolho (não sei se é apócrifa) terá sido dita por Sir Winston Churchill: “Success is stumbling from failure to failure with no loss of enthusiasm.”  Nunca desistam dos vossos sonhos, sejam perseverantes, confiem em vocês mesmos, e deem sempre o vosso melhor! Com uma formação do Técnico, têm convosco uma ferramenta poderosíssima que perdurará para sempre.