10 perguntas a Gonçalo Anacoreta

Published on September 30, 2022

Gonçalo Anacoreta, concluiu o curso de Engenharia Civil em 1999 e nestes mais de 20 anos de experiência profissional, teve a oportunidade de trabalhar em 4 países diferentes: Suíça onde iniciou a sua atividade profissional numa consultora de mobilidade, em Portugal e Espanha onde fez consultoria de gestão em grandes consultoras, e em Angola onde reside há mais de 13 anos, estando atualmente a trabalhar na TotalEnergies como responsável pelo desenvolvimento de negócio de energias renováveis, onde vai desenvolver um dos primeiros IPP fotovoltaicos do país.

Porquê o Técnico?
Quando vim estudar, tive a sorte de fazer parte de um contingente especial e que tinha acesso directo à universidade sem os famosos "numeros clausus", mesmo se na altura tivesse média para entrar. Na altura queria tirar engenharia, não sabia muito bem a aplicação depois profissional, mas acabei por optar pela Engenharia Civil porque acreditava que me daria mais abertura para a vida profissional. Na altura estava a iniciar o curso de LEGI... acho que se soubesse o que sei hoje, teria optado por esse curso.. Então o Técnico foi a escolha natural.

Pode falar-nos um pouco dos seus estudos no Técnico?
Para mim o estudar no Técnico (na universidade) foi uma mudança importante na minha vida, sobretudo pessoal. Na altura os meus pais viviam na Bélgica, eu tinha lá concluído os meus estudos secundários, e portanto foi tudo uma novidade. Voltar ao país, sem os meus pais, ir viver para um colégio universitário, o Pio XII, não conhecer ninguém, fazer novos amigos. foi tudo ao mesmo tempo e com a dificuldade acrescida da exigencia de estudar no Técnico. Na altura as análises matemáticas, as físicas, etc...  era ouvir falar das praxes, do famoso Sr. Carvalhosa.... enfim foi um bom período pessoal. Achei o Técnico demasiado teórico, mas sei que foi uma boa escola para a vida.

Como foi estudar no Técnico?
Na altura era um mundo muito "de homem". A engenharia ainda era vista como um curso de rapazes, eram poucas as candidatas a engenharia (com exceção da Engenharia Química). Foi também o ano em que foi inaugurado o "Edifício de Civil" e a sua esplanada. Na altura íamos pouco ao edifício central, apenas para uma aula teórica, na auditório C9 (se não me engano), mas na altura contava-se, e não sei se é verdade ou não, que no Central, e inicialmente, nem havia casas de banho para as senhoras. Felizmente o tempo veio mudar tudo isto e hoje a igualdade de género é uma realidade.

Qual foi a melhor parte do seu curso? E a mais desafiante? 
Foi sem dúvida alguma a oportunidade de fazer um ano de Erasmus na Suíça. Na altura toda a gente queria ir para outros destinos. Eu não tinha grande média, mas tinha a sorte de falar bem francês. O estado suíço ajudava com uma pequena bolsa (não era a bolsa da UE, a Erasmus), mas deu para eu consolidar conhecimentos e sobretudo perceber o porquê do sucesso dos suíços como sociedade. Adorei a oportunidade de ter vivido naquele país, primeiro a estudar (no meu último ano) e depois a trabalhar.

Em que atividades extra-curriculares esteve envolvido?
Como vivia no Colégio Pio XII, que tinha uma vivência única, com estudantes de todo o país e  de vários cursos, acabei por não ter participado em muitas atividades do IST, no entanto ainda participei em alguns torneios de futebol.... julgo que nunca chegámos ao fim, ou pelo menos não me lembro de grandes resultados.

Qual é a sua melhor recordação do Técnico?
Não é que seja a melhor recordação, mas lembro-me que em plena campanha eleitoral legislativa, o Engº António Guterres veio falar ao IST. Não sendo da minha "cor política", fui ouvir com algum ceticismo, mas confesso que me marcou de forma positiva a sua forma de falar e o seu humanismo bem como a sua experiência no IST, mas não me fez mudar de opinião política 😉.

Pode falar-nos um pouco sobre o início do seu percurso profissional?
Depois de terminado o meu ano de Erasmus, e tendo gostado da minha experiência na Suíça, resolvi mandar o meu cv para umas quantas empresas na Suíça. Comecei a trabalhar numa empresa chamada Transitec, que na altura já olhava para questões de mobilidade, a integração dos transportes públicos em meios urbanos, parques de estacionamento à entrada das cidades, zonas de 30 km/h em zonas residenciais, semaforização inteligente. Para além do trabalho em si, marcou-me a forma de trabalhar dos suíços. Entrar cedo, sair a horas, não perder tempo durante o dia de trabalho, a seriedade, respeitar horários e prazos. Marcou-me para a vida.
Depois resolvi voltar a Portugal e queria trabalhar em questões relacionadas com logística. Falava-se muito do SAP... e comecei a trabalhar na Accenture (ainda fui contratado pela Andersen Consulting 😉) uma excelente escola profissional. Conheci gente brilhante, tive contacto com vários tipos de industria e fiz amigos para a vida que ainda hoje mantenho contacto (não tanto como gostava).
Depois trabalhei um ano em Madrid. Voltei a Lisboa e há 13 anos atrás resolvi, com a minha mulher, ir viver para Angola (onde nasci). Em Angola, trabalhei na PwC e na Accenture, e depois passei para a industria no ramo da energia, primeiro na General Electric, durante 7 anos, como Senior Sales Manager, depois durante 1 ano numa "Startup" de energias renováveis, a Source Energia, como Partner. Há um ano aceitei o desafio de ir trabalhar para a multinacional francesa - TotalEnergies como responsável de desenvolvimento de negócio de Energias Renováveis desta grande empresa que tem a ambição de ser um dos 5 maiores produtores mundiais com 100GW de energia renovável instalada em todo o mundo até 2030. Tem sido uma aventura fantástica.

Fale-nos um pouco sobre o trabalho que está a desenvolver atualmente.
Neste momento estou a liderar e a desenvolver um dos primeiros IPP de energias renováveis em Angola. O projeto Quilemba Solar é um consorcio com duas empresas locais. É um "pequeno" projeto de 35MW, mas que é fazer parte da história num País que é o meu e isso deixa-me também orgulhoso.

O que o faz ter orgulho em ser alumnus do Técnico?
Sobretudo o reconhecimento de uma escola de muita qualidade.

Que conselhos daria aos estudantes atuais?
Acredito que o IST tenha mudado imenso. Sobretudo o que eu acho importante é que os estudantes, mais que passar de ano, aprendam. Hoje o acesso à informação não tem nada que  ver com o meu tempo de estudante, acredito que hoje já não se justifique um "Sr. Carvalhosa" nem as casas de fotocópias à volta do IST com os exames do "antigamente"... mas essa foi a nossa realidade no século passado. Com o mundo a ir cada vez mais rápido e em concorrência global, é importante ser diferente e ser melhor.

Que conselhos daria aos estudantes do ensino secundário que estão a pensar em estudar STEM, particularmente no Técnico?
Eu julgo que o mundo vai ter sempre uma componente muito importante em Matemáticas.... as redes, a inteligência artificial, etc... e as matemáticas dão uma abertura muito grande para um leque de oportunidades profissionais.