
O que é uma carreira?
Ao ser anunciado como vencedor da categoria Carreira do Prémio Técnico Alumni 2026, entregue na 2.ª edição da Gala Solidária Técnico Alumni, João Bento, alumnus de Engenharia Civil, reflete, em discurso de agradecimento, sobre o significado de carreira e o papel dos “pontos de inflexão” e de quem nos acompanha na sua construção.
“Há uma ilusão reconfortante que abunda, sobretudo quando somos mais jovens: a de que as carreiras se constroem. Que há um plano, uma direção, uma vontade que vai moldando, tijolo a tijolo, aquilo que um dia poderemos invocar como sendo a nossa “carreira”. Não creio que seja assim. Ou, pelo menos, não foi assim no meu caso.
O que houve foram oportunidades e decisões. Muitas delas, no momento em que foram tomadas, foram ponderadas; algumas foram intuitivas; outras, simplesmente impulsivas e talvez arriscadas. A esses momentos de oportunidade e decisão, podemos chamar ‘momentos chave’. Sou capaz de identificar muito precisamente as ocasiões em que a direção mudou. Momentos em que tropecei numa oportunidade inesperada, numa crise alheia, num encontro, num telefonema, numa reunião inesperada, numa mudança na envolvente, e saí desse momento tomando ou pensando tomar um rumo diferente. Quando penso nisto, vem-me à cabeça a ideia de ‘pontos de inflexão’, como diríamos na linguagem que aprendemos aqui. Esses momentos dificilmente chegam com aviso prévio ou com a solenidade que merecem. Muitas vezes só os reconhecemos como pontos de inflexão muito depois de os termos atravessado. E aqui está o paradoxo central de qualquer formação: não nos podemos preparar, nem podemos preparar ninguém, para o conteúdo desses momentos, porque não sabemos o que vão ser. Não sabemos qual a decisão a tomar, em que circunstâncias, sob que pressão e com que risco. O que podemos fazer é preparar a pessoa que estará lá quando o momento chegar. É assim que vejo o verdadeiro papel da Escola, e aquilo que o Técnico tem feito: não ensinar um ofício, mas prepara-nos para sabermos navegar; para saber a fixar o rumo ou mudar de rumo sempre que as oportunidades e a nossa vontade assim o permitam.
Uma carreira, vista assim, não se constrói – responde-se a ela. É a soma do que fizemos quando reagimos perante os nossos pontos de inflexão, para que, olhando para trás, o fio que ficou seja reconhecível como nosso. E esse fio não estava lá à espera de ser seguido. Somos nós que o tecemos e só se torna aparente mais tarde, quando olhamos para trás, com a memória e com o benefício do tempo. É por isso que acho que uma carreira não se faz. Reconhece-se. E só se reconhece quando já passou.
Mas há uma segunda ilusão, ainda mais sedutora: a de que esse fio é principalmente nosso. Que, por exemplo, a carreira que hoje recebe este prémio é o resultado da vontade individual, do esforço solitário ou do mérito pessoal deste vosso amigo. Também não é assim. Ou, de novo, não foi assim comigo. Uma carreira é o sedimento da interação com todas as pessoas que nos formaram – os que exigiram mais do que achávamos ter para dar, os que confiaram quando nós próprios hesitávamos, os que nos contrariaram ou nos desafiaram e, com isso, nos tornaram mais capazes. Cada uma dessas pessoas deixou qualquer coisa. E é por isso que, no fundo, aceitar um prémio de carreira é sempre estranho: porque nunca é apenas de quem o recebe [...].
Reagi de forma desconcertada ao telefonema do Rogério a comunicar-me este prémio. A notícia era inesperada e a cerimónia coincidia com outra gala para a qual estava já comprometido, a Investor Relations and Governance Awards, onde sou candidato a melhor CEO. Fiquei então a refletir: foi aqui que tudo começou e, num desses pontos de inflexão, optei por uma vida académica que acabou por marcar mais de 20 anos da minha carreira e me conduziu ao percurso que hoje me torna candidato a esse outro prémio também. Por isso, escolhi vir agradecer presencialmente, no lugar onde tudo começou, com alguns dos que fizeram parte da minha caminhada e que também são merecedores deste reconhecimento.
Voltando, então, ao início: o que é uma carreira? Depois de tudo o que disse, a minha escolha de resposta terá que ser a de que uma carreira é a soma das decisões que tomamos e daquilo que acontece entre as essas decisões. Não são só os cargos, não são só as realizações, não são tanto os prémios; são também os intervalos, as dúvidas, as escolhas feitas com informação incompleta, e são a marca que deixamos nas pessoas que encontrámos no caminho.
Tudo isso para dizer, aos recém-alumni, um conselho: não tentem construir uma carreira! Tentem construir-se a vós próprios – com rigor, com curiosidade, com exigência, com a capacidade de perder sem se perderem, com capacidade para arriscar com sensatez. O resto vai acontecer. E um dia, olhando para trás, vão encontrar um fio. Não o fio que planearam, mas outro, mais interessante, mais vosso – aquilo que se revela como a vossa carreira”.
Nota: o presente artigo corresponde a uma versão síntese do discurso de agradecimento. A versão integral encontra-se anexa.
