
10 perguntas a Catarina Barradas
A Catarina Barradas é formada em engenharia civil pelo Instituto Superior Técnico. Iniciou o seu percurso profissional como projetista, mas acabou por trocar a engenharia por um percurso ligado à multimédia. Estudou cinema em Nova Iorque, na New York Film Academy e em 2007 integra a PT como consultora com foco na produção audiovisual. Ao longo do percurso, continuou a apostar na formação, tendo feito um Executive MBA na AESE/IESE.
O perfil e experiência profissional diversificada captaram a atenção da Fox Networks Group Portugal que, em 2015, a convida para o lugar de diretora de Marketing da empresa, que viria a ser adquirida pela The Walt Disney Company em 2019. Foi responsável pela estratégia de marca e comunicação de todas as marcas do Grupo, onde se incluem marcas como Fox, Fox Life, Fox Comedy, Fox Crime e Fox Movies, além da National Geographic, 24Kitchen, e mais recentemente a marca Disney e a Plataforma de streaming Disney +. O trabalho feito com estas marcas foi amplamente reconhecido com vários prémios internacionais e nacionais.
Em Junho de 2021 assume a direção de marca global da EDP com o grande desafio de gerir a estratégia global da marca, patrocínios e activação.
Porquê o Técnico?
Acabei o liceu com 17 anos sem a menor ideia do que queria ser e fazer, tinha acabado de chegar dos Estados Unidos onde fiz o equivalente ao décimo segundo e onde tive a oportunidade de experimentar outras áreas para além da matemática, física e química que seriam as minhas três disciplinas do 12ºano do ensino português. Inscrevi-me no Técnico porque sou filha, sobrinha e neta de engenheiros todos formados no Técnico e a área que escolhi no 10º ano me condicionou a um percurso STEM, numa altura onde nada era claro para mim o meu pai, sem me obrigar, orientou a minha escolha. Hoje, tenho que lhe agradecer essa orientação.
Pode falar-nos um pouco dos seus estudos no Técnico?
Entrei no Técnico em 1992 em Engenharia Civil quando o curso ainda eram 5 intensos anos, formei-me em 1997 depois de um Erasmus em Paris no último semestre. Os tempos do Técnico foram tempos exigentes, penso que é a primeira vez que nos deparamos com o falhanço, saímos do liceu sem a menor preparação para a exigência académia que o Técnico impõe. Aquilo que hoje tanto se fala de resiliência penso que o Técnico é uma excelente escola para formar resilientes. Passados os dois primeiros anos tudo se tornou mais fácil, com alguma disciplina, método de estudo e acima de tudo ir às aulas consegui concluir o curso em 5 anos. Fiz grandes amigos e consegui ter vida própria o que se espera de uma estudante com 20 anos, o Erasmus no último semestre foram dos meses mais divertidos da minha vida.
Qual foi a melhor parte do seu curso? E a mais desafiante?
A melhor parte do meu curso foram, sem dúvida, os últimos anos e a passagem pela École Naticonale de Ponts et Chaussées em Paris e foi muito interessante esse intercâmbio e a experiência de viver fora de Portugal numa grande cidade cheia de cultura e diversidade. A mais desafiante foram os primeiros anos e acima de tudo superar o choque das notas dos primeiros exames, depois de ultrapassado esse momento tudo se torna possível.
Em que atividades extracurriculares esteve envolvida?
Durante o curso fiz cursos de desenho e fotografia, para além de aulas de dança. Sempre procurei complementar toda a racionalidade da engenharia com a criatividade de outras disciplinas. Olhando para trás não sei como é que tinha tempo para tudo, mas o que é facto é que a exigência do curso nos torna capazes de quase tudo.
Qual é a sua melhor recordação do Técnico?
Acho que o primeiro 18 era um feito que exigia uma ida a oral para provar a nota, acontece que era o semestre de Verão e eu preferi o 16 a perder mais um dia que fosse a estudar em julho! Outra grande recordação foi o alívio que senti quando entreguei o último exame e sabia que a empreitada de 5 anos estava concluída. Tenho muito boas recordações das festas organizadas pela associação de estudantes.
Pode falar-nos um pouco sobre o início do seu percurso profissional?
Trabalhei como consultora e depois como projetista onde tive a oportunidade de trabalhar em projetos muito desafiantes e conhecer pessoas extraordinárias, mas sabia que o caminho não seria esse, não que o trabalho de pensar numa estrutura não fosse desafiante e exigente, mas no fundo o que me fascinava era a criatividade do trabalho da arquitetura, a criação e a conceção. No entanto, voltar atrás 5 anos e fazer um curso com a exigência da arquitetura, não me pareceu viável.
Enveredei pelo cinema/publicidade. Eu era uma apaixonada por cinema e depois de alguma investigação percebi que era uma área que conjugava uma parte técnica com a criatividade de contar histórias. Durante sete anos fiz de tudo nesta área, que tem uma forte componente artística e um elevado nível de organização.
Fale-nos um pouco sobre o trabalho que está a desenvolver atualmente.
Sou diretora global da marca EDP, sou responsável por definir e desenvolver a Estratégia de marca do Grupo, bem como a política de ativação de marca e de patrocínios, garantindo o alinhamento das mesmas em todas as geografias onde a EDP está presente. A EDP hoje é uma empresa global presente em 29 mercados, com 13 mil colaboradores de várias nacionalidades. Uma empresa com um propósito claro de liderar a transição energética de ser 100% verde até 2030. Ser responsável pela marca global da EDP implica deslocações mais frequentes a países como o Brasil, Estados Unidos, Singapura para conhecer de perto a operação local e as equipas. Agora, estou sempre com malas feitas, mas tenho descoberto equipas incríveis. Ouvir e aprender as especificidades de cada uma das geografias em que estamos presentes tem sido uma experiência fantástica. É um enorme orgulho trabalhar num sector chave para salvarmos o nosso planeta e que terá um papel fundamental para a descarbonização da economia, numa indústria em constante mudança e em grande aceleração. Temos um grande desafio de que muita da tecnologia necessária para a transição energética está ainda por inventar - precisamos do conhecimento e do espírito inovador dos alunos e alumni do Técnico.
Como é que entrou na área profissional em que está agora?
Tenho um percurso peculiar e nada linear, larguei a engenharia cedo para o cinema e a publicidade. O meu contexto pessoal mudou e precisava de estabilizar. Surgiu uma oportunidade para ser consultora na antiga Portugal Telecom, na área de compras de produção audiovisual, o que se revelou muito interessante em termos pessoais, já que me dava mais estabilidade, mas ao mesmo tempo não punha de parte a área de produção e permitia-me trabalhar de perto com equipas de marketing.
Fiz um Executive MBA na AESE/IESE e depois disso surgiu o convite para a direção marketing da FOX. Assumir pela primeira vez a direção de uma equipa de marketing de uma marca internacional de entretenimento foi um grande salto na minha carreira onde pude consolidar tudo aquilo que fui aprendendo não só na minha curta carreira de realizadora / produtora de publicidade, como junto das equipas de marketing da PT e das agências criativas. A Disney comprou o negócio internacional da FOX e em 2019 passei a assumir as marcas FOX e National Geographic como a Disney e o desafio do lançamento em Portugal da plataforma de Streaming Disney +. Depois de 5 anos na Fox, depois Disney, assumi em 2021 a direção de marca global do grupo EDP.
Que conselhos daria aos estudantes atuais?
O Técnico é uma escola difícil mas acredito que torna a vida profissional mais fácil. Há caminhos mais fáceis mas que eu diria que aumentam a probabilidade de tudo ser mais difícil depois. Sejam persistentes, não desistam à primeira dificuldade, o curso é só um começo, o início de um percurso que caberá a cada um construir, por vezes como foi o meu caso não se acerta à primeira, mas o que na altura me pareceu fazer menos sentido, hoje olhando para trás ainda bem que fiz os 5 anos completos e que não desisti. Hoje consigo dar um sentido às minhas escolhas e acima de tudo enquanto fui procurando o meu caminho, o Técnico como base do meu CV era o selo de credibilidade para um percurso menos convencional.
Que conselhos daria às raparigas que estão a pensar em estudar STEM, particularmente no Técnico?
Se têm vocação para as áreas STEM eu diria para não hesitarem, o Técnico é uma excelente escola uma chancela de qualidade que vos irá permitir fazer e escolherem o que quiserem depois é só complementar a formação em áreas para as quais se sintam menos preparadas. Outro conselho será não se esquecerem de trabalharem o lado mais emocional, as chamadas soft skills, por vezes em áreas mais racionais esquece-se a inteligência emocional fundamental para o sucesso em qualquer carreira.
