10 perguntas a Patrícia Sousa

Published on December 9, 2022

Patrícia Paes de Sousa licenciou-se em Engenharia Química no Instituto Superior Técnico, em 1995, onde também se doutorou em Química, em 2003. Após um período de pós-doutoramento, foi investigadora na Universidade Nova de Lisboa entre 2008 e 2012, ano em que iniciou funções como gestora de ciência na Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Saiu em 2019, passando a coordenar o Centro de Gestão de Investigação do ISPA – Instituto Universitário. Desde o início de 2022, é tradutora freelancer de inglês para português de conteúdos científicos e técnicos.

Porquê o Técnico?
Para ser sincera, foi uma escolha com algumas reservas. Estava com muitas dúvidas sobre que curso escolher e a solução que encontrei foi identificar as opções relacionadas com a disciplina que mais gostava – Química. Coloquei o Técnico como primeira opção, mas alertando que mudaria no ano seguinte, caso não gostasse e/ou não me adaptasse. No final do primeiro ano letivo, essa possibilidade tinha desaparecido completamente.

Como mulher, como foi estudar no Técnico?
No início não foi fácil, demorei algum tempo a adaptar-me, mas de forma alguma pelo facto de ser mulher. Talvez devido ao equilíbrio de género do curso de Engenharia Química, não sei, mas a verdade é que nunca senti qualquer discriminação ou dificuldade acrescida por esse motivo. O que foi mais difícil para mim, mas simultaneamente um desafio, foi conseguir encontrar o ritmo e método de estudo adequados para continuar a alcançar os bons resultados a que estava habituada.

O que mais leva dos seus tempos de Técnico, nas aulas ou fora delas?
O ter aprendido a pensar, a não ter medo de enfrentar desafios e a saber procurar as soluções para os ultrapassar. Possivelmente parecerá um clichê, mas a verdade é que sinto que o Técnico me preparou para muito mais do que apenas saber as matérias lecionadas. Não há dúvida que um curso no Técnico é exigente e trabalhoso. Mas, penso que precisamente por causa disso, temos oportunidades de desenvolvimento que, noutro contexto, provavelmente não nos seriam proporcionadas. 

Qual é a sua melhor recordação do Técnico?
Os colegas! Entrei para o Técnico em 1990 e vários dos meus amigos atuais mais próximos, com quem convivo regularmente, foram meus colegas de curso. Mesmo pensando no grupo de forma alargada (entraram 120 alunos para Engenharia Química nesse ano), o espírito de camaradagem e a entreajuda foram constantes ao longo do curso e, com certeza, a grande maioria dos meus colegas tem excelentes recordações desses anos. Fomos uma “fornada” muito especial.

Qual é o seu lugar preferido no Técnico e porquê?
Posso referir três? :) O grande anfiteatro (que já não existe) e a biblioteca, afetos ao curso de Engenharia Química, são dois locais dos quais tenho recordações muito especiais. O anfiteatro, onde decorria a maioria das aulas teóricas dos primeiros anos, com os 120 alunos em simultâneo, algumas das quais com professores e episódios memoráveis; e a biblioteca, onde passei MUITAS horas a realizar trabalhos e relatórios de grupo (devido à forte – e excelente! – componente prática que o curso tem). O terceiro local é o Complexo Interdisciplinar, onde iniciei o meu percurso profissional (no Centro de Química Estrutural – CQE) e ao qual acabei por estar, de alguma forma, ligada até 2007 – ou seja, 17 anos depois da minha entrada no Técnico!

Pode falar-nos um pouco sobre o início do seu percurso profissional?
Ao terminar o curso (na altura, pré-Bolonha), fiquei no CQE a trabalhar com uma bolsa, num projeto de investigação liderado pela Professora Margarida Correia dos Santos. Acabei por não resistir ao “bichinho” da investigação científica e realizei um doutoramento na área da (Bio)Química, sob a sua orientação e da Professora Maria de Lurdes Gonçalves. Depois disso, realizei um pós-doutoramento no Requimte (Universidade Nova de Lisboa), no grupo do Professor José Moura. A referida ligação ao CQE até 2007 foi resultado da estreita colaboração entre os dois grupos de investigação.

Qual foi a decisão mais difícil que alguma vez teve de tomar?
A mudança profissional que realizei entre 2021 e 2022. Depois de mais de 20 anos a trabalhar em investigação científica, primeiro como investigadora e, nos últimos 10 anos, como gestora de ciência, percebi – felizmente, ainda a tempo! – que a minha verdadeira paixão é o mundo das palavras, o que me levou a tornar-me tradutora freelancer.

Como é que entrou na área profissional em que está agora?
O mais difícil foi mesmo a decisão. Como poderia deixar tudo o que tinha construído profissionalmente e trocar um emprego seguro, como tinha, pela incerteza de conseguir entrar numa área completamente nova para mim? No entanto, ao refletir sobre a forma como poderia efetuar essa mudança, compreendi que o meu percurso poderia ser uma enorme mais-valia para o trabalho de tradução, o que transformou a hesitação numa determinação que não imaginava conseguir encontrar nesta fase da minha vida. Ao adaptar o currículo, perfil no LinkedIn, etc., à nova área profissional, percebi que era importante adquirir alguma formação mais específica, pelo que realizei, no ano letivo 2021/2022, uma pós-graduação em Tradução. Durante esse período comecei a pesquisar e contactar agências de tradução e potenciais clientes diretos e, a pouco e pouco, o trabalho tem vindo a surgir.

Fale-nos um pouco sobre o trabalho que está a desenvolver atualmente.
Na sequência do meu percurso, atualmente traduzo principalmente conteúdos científicos e técnicos, como patentes, manuais, relatórios, etc., nas áreas da Química e Ciências da Vida. E frequentemente confirmo que, dada a especificidade deste tipo de documentos, o meu percurso é fundamental para conseguir produzir trabalhos com a qualidade exigida.

Que conselhos daria às raparigas que estão a pensar em estudar STEM, particularmente no Técnico?
Que não hesitem nem um segundo em candidatar-se! Se têm interesse na área científica em causa e/ou nas respetivas perspetivas profissionais, com empenho e dedicação irão com certeza ser bem-sucedidas. Todos temos consciência do muito que há ainda para fazer para uma verdadeira igualdade de género em vários setores. Não permitir que o facto de ser mulher limite ou condicione escolhas tão importantes como o percurso académico (e mais tarde profissional) a seguir, é uma contribuição importantíssima para o reforço dessa igualdade nas nossas sociedades.