10 perguntas a João Pedro Mortágua

Publicado em September 16, 2022

João Pedro Mortágua tem 44 anos, licenciou-se em Engenharia Aeroespacial (pré-Bolonha), no Técnico, e fez um mestrado na Universidade Técnica de Delft, na Holanda. É natural de Lisboa, tem um costela alentejana mas é, acima de tudo, um "homem do mundo". É casado e tem 4 filhos.
Já trabalhou na NASA, na Embraer, na TAP, na Airbus e é, actualmente, responsável por uma área de negócio do CEiiA, no Porto.
Apesar da sua formação técnica de base, o seu percurso pessoal e profissional mostram que o João Pedro é um altruísta, sempre em busca de novas experiências e de novos desafios. É, como gosta de dizer, "um contemplativo na acção".

Porquê o Técnico? 
Quando concorri à Faculdade, em 1995, tinha o Técnico como referência na área de engenharia - ainda hoje tenho, claro! Escolhi Engenharia Aerospacial como primeira opção e, portanto, o Técnico era a escolha óbvia.  

O que mais leva dos seus tempos de Técnico, nas aulas ou fora delas? 
Levo uma vida académica intensa, com muitos amigos, muitas horas de trabalho e professores que nunca esquecerei. Foram anos de crescimento pessoal e de descoberta. O Técnico abriu-me as portas para o mundo, pessoal e profissional!  

Qual foi a melhor parte do seu curso? E a mais desafiante? 
A melhor parte do curso foi quando comecei a sentir-me em casa, a perceber que o Técnico, apesar de grande e "densamente povoado", poderia ser a minha casa durante 5 anos. Gostei particulamente de fazer trabalhos em grupo que nos "saíam do pêlo", que nos obrigavam a ler, a estudar, a investigar até às tantas da manhã. Havia exames que temíamos e cadeiras menos fáceis. Foi um desafio constante. O maior desafio foi conseguir, em conjunto com um grupo de colegas do meu ano, que nos fosse autorizado fazer o 4º ano na Universidade Técnica de Delft, na Holanda. Fomos os primeiros, no curso de Engenharia Aeroespacial.

No Técnico, teve alguma figura inspiradora? Quem e porquê? 
A Professora Ana Maria Mourão, do departamento de Física. Além de irreverente, era uma professora próxima dos alunos, capaz de nos motivar e de nos desafiar. Passei a gostar ainda mais de física, sem temer buracos negros nem positrões. 

Qual é a sua melhor recordação do Técnico? 
Além do Arraial do écnico (naturalmente!), lembro-me das aulas em conjunto com outros cursos (Engenharia do Ambiente, Engenharia e Gestão Industrial, etc), onde podíamos trocar impressões e perceber as diferentes perspectivas de uma mesma disciplina, além dos trabalhos em que tínhamos que fazer a ponte entre o que estávamos a estudar e o mundo real. Comecei a ganhar esta noção nos últimos anos do curso e foi bom perceber que o que estavamos a estudar seria usado, na vida real, para desenvolver novas tecnologias e soluções de mercado. 

Pode falar-nos um pouco sobre o início do seu percurso profissional? 
Ainda durante o curso, tive a sorte de conhecer um investigador da NASA que estava a trabalhar na área onde eu fiz a minha tese - aeroelasticidade -, que me convidou para participar num projecto nos EUA, na equipa que ele coordenava. Concorri a uma bolsa da FLAD e foi, então, nos EUA que comecei a trabalhar num projecto industrial, que mais tarde me permitiu trabalhar na Airbus, em Madrid. Acho que estive com a pessoa certa na hora certa, além de ter uma sólida base de conhecimentos que o Técnico me deu e me permitiu entrar no mercado de trabalho sem grandes sobressaltos...


Qual foi a decisão mais difícil que alguma vez teve de tomar?  
Interromper a minha carreira profissional e entrar para a Companhia de Jesus. Aos 27 anos, e depois de um processo de discernimento, quis ser jesuíta. Foram 2,5 anos de caminho, longe de aviões e de novas tecnologias, em que me conheci melhor e percebi de que maneira podia ser mais útil ao mundo. 


Como é que entrou na área profissional em que está agora? 
Continuo a trabalhar no sector aeroespacial, agora mais ligado à gestão e à estratégia da empresa onde estou. Já não uso as ferramentos de engenharia e análise que usei nos primeiros anos da minha vida profissional. Continuo a pensar como um engenheiro e continuo a estudar para me actualizar e acompanhar as novas tendências tecnológicas mas, agora, o foco é o mercado e as necessidades "societais", como está na moda dizer... 

Que conselhos daria aos estudantes atuais?
Continuo a conhecer estudantes do Técnico e de outras universidades no meu trabalho, felizmente. Gosto de continuar ligado aos mais novos e aos que estão na faculdade. A indústria precisa muito da universidade e dos seus alunos, assim como os alunos precisam da indústria. Mais do que dar conselhos aos estudantes actuais, agradeço-lhes por serem curiosos, empreendedores e terem objectivos. O mundo precisa de estudantes que estejam alerta e sejam capazes de contribuir para um mundo melhor. Peço-lhes que sejam perseverantes e confiem em si próprios! 

Tem uma citação ou frase favorita? 
Tenho.  “Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade.” (Fernando Pessoa. in Livro do Desassossego)
E que bom era que, algum dia, aprendessemos a ser realmente livres....