10 perguntas a Sara Guerreiro de Sousa

Published on October 7, 2022

Sara Guerreiro de Sousa, 31 anos, licenciatura em Matemática Aplicada e Computação. Depois da passagem pelo IST a Sara trabalhou alguns anos no Reino Unido nas áreas de transição digital e ciência dos dados com o sector público e organizações sem fim lucrativo. Faz parte da Data Science for Good Portugal onde é parte da team lead como voluntária e tem um especial interesse pelas áreas de Ethical AI e Responsible Product Development. Actualmente trabalha como Senior Research Manager no departamento de investigação e inovação da Feedzai, onde colabora regularmente com o Técnico.


Pode falar-nos um pouco dos seus estudos no Técnico?
Depois de ter feito um ano da licenciatura de Economia na Faculdade NOVA de Lisboa percebi que as cadeiras que realmente me atraiam eram as cadeiras relacionadas com matemática (cálculo, álgebra, estatística, etc) e por isso no final do primeiro ano decidi trocar e ingressar no Instituto Superior Técnico para frequentar a Licenciatura de Matemática Aplicada e Computação. Foram três anos bastante desafiantes em que fui exposta a cadeiras do curso de matemática mas também a outras cadeiras dos cursos de Engenharia física, biomédica e informática.

Como foi estudar no Técnico?
Foi um grande desafio a nível pessoal e técnico. A forma como o ensino superior no Técnico estava organizado era bastante diferente da do ensino secundário pelo que houve um choque inicial de habituação e adaptação à forma de ensino e aos métodos de estudo e aprendizagem.

Em que atividades extra-curriculares esteve envolvida?
Durante o período em que fui aluna do Técnico estive envolvida em várias atividades extra-curriculares. Fui bolseira do NAPE num projeto em colaboração com a Siemens cujo objetivo era promover a curiosidade e interesse pela área científica em escolas do ensino básico, através de experiências manuais e partilhar informais da nossa experiência enquanto estudantes universitários. Fiz também parte das Missões Universitárias onde um grupo de estudantes do IST se organizou e voluntariou para passar uma semana no Alentejo com populações mais carenciadas levando a energia e boa disposição de jovens estudantes.

Pode falar-nos um pouco sobre o início do seu percurso profissional?
O início do percurso profissional foi sem dúvida a etapa mais desafiante da minha carreira. A procura do primeiro trabalho foi dura: se por um lado levava qualificações académicas muito fortes (uma licenciatura em matemática no Técnico e um mestrado em Finanças na NOVA SBE), foi também a primeira vez que tive de escrever cartas de motivação e passar por processos de entrevistas por vezes muito compridos e exigentes. A acrescentar o facto de na altura ter decidido que queria ter a minha primeira experiência profissional fora de Portugal (em Londres) num cruzamento de áreas bastante específico: transição digital e impacto social. Gosto sempre de partilhar que recebi muitos "Nãos" mas também que nunca desisti e desanimei. Depois de alguns meses acabei por receber uma oferta para estagiar no sítio que mais ambicionava e onde acabei por ficar efetiva e trabalhar durante 6 anos: começando como Intern e acabando como Manager na Social Finance UK.

Fale-nos um pouco sobre o trabalho que está a desenvolver atualmente.
Durante os últimos 6 anos trabalhei maioritariamente com o sector público e organizações sem fim lucrativo no Reino Unido em projectos nas áreas de transição digital e data science, sempre com um foco muito grande nos resultados gerados em termos de impacto social e económico.
Durante a pandemia realizei o meu desejo de regressar a Portugal com a intenção de aprender e contribuir para uma utilização mais ética e responsável de dados e técnicas de machine learning em produtos desenvolvidos pelo sector privado. Estou a trabalhar na Feedzai em Lisboa como Senior Research Manager onde estou responsável pela parte estratégica e operacional do departamento de investigação e inovação da Feedzai, sendo que um dos pilares mais importantes do departamento de research é a área de "Responsible and Ethical AI". Grande parte das minhas responsabilidades passa por assegurar que as inovações desenvolvidas pelos investigadores e investigadoras da equipa são incorporadas no produto e usadas pelos clientes finais.

Atualmente, como é um dia típico para si?
Atualmente o trabalho do meu dia a dia vive da intersecção entre conhecimento técnico na área de data science/machine learning relativo às inovações que estão a ser desenvolvidas pela equipa de investigação e product management, mas envolve também muitos soft skills relacionados com gestão de stakeholders internos e externos ao departamento.

O que a faz ter orgulho em ser um alumna do Técnico?
Olhar para a qualidade da comunidade de alumni do Técnico e ver a quantidade de áreas diferentes em que ex-alunos do Técnico trabalham e contribuem diariamente e perceber o impacto que estas pessoas, cada uma à sua forma, têm no progresso tecnológico e na construção de uma sociedade melhor.

Que conselhos daria aos estudantes atuais?
Diria para não terem medo de crescer, como pessoas, estudantes e futuros profissionais. Parte do crescimento inclui não se deixarem desanimar pelos desafios do percurso académico, procurarem encontrar áreas que os motivem verdadeiramente e investirem nelas seja de que forma for. Também que não tenham medo de fazer perguntas e abordar alunos mais velhos/professores/ex-alunos e pessoas na indústria sobre as suas experiências e aprendizagens pois há de certeza muito que podem e devem aprender com essas pessoas. No final de contas os lideres de hoje foram outrora jovens estudantes como vocês e de certo também cometeram erros e tiveram dúvidas.

Que conselhos daria às raparigas que estão a pensar em estudar STEM, particularmente no Técnico?
Que nunca achem que são menos porque estão em minoria numa sala. Que acreditem sempre em si, no seu valor e potencial e não tenham medo de questionar outros e dar voz aos seus pensamentos e opiniões.

De que mais se orgulha na sua vida?
Uma das coisas que mais me orgulho é nunca ter desistido de procurar e encontrar oportunidades nas áreas que verdadeiramente me fascinam (envolvendo isso mudar de curso, ir para fora do país, ser rejeitada várias vezes, etc) e ter criado um percurso profissional bastante único e que espelha bem a pessoa que sou e os interesses que tenho. Vivemos num mundo em que cada vez mais existe especialização mas também cada vez mais existem oportunidades para cruzar áreas de conhecimento diferentes. Depende de nós a procura e criação de oportunidades diferentes, de influenciar e criar novos projectos/áreas de trabalho. Para isso é preciso ser teimoso (no bom sentido da palavra), continuar sempre a aprender, seguir os nossos interesses e criarmos relações e interações com outros que admiramos.

Tem uma citação ou frase favorita?
"O importante é não parar de questionar" (Albert Einstein) e "Se és o mais inteligente da sala então estás na sala errada" (Unknown).