
Alumnus do Técnico lidera transformação do ecossistema de startups em Portugal através da Indico Capital
Nos últimos anos, o ecossistema de startups em Portugal tem vindo a amadurecer, impulsionado por uma nova geração de empreendedores. Segundo a Startup Portugal há atualmente 3750 startups no nosso país e sete unicórnios.
Nesse contexto, a Indico Capital Partners destaca-se como um dos principais catalisadores deste crescimento, tendo sido o primeiro fundo de venture capital independente e institucional a surgir no país, em 2018.
Stephan de Moraes, alumnus do Técnico, Managing General Partner tem acompanhado de perto a transformação do panorama empreendedor português com os seus avanços, mas também os desafios, desde a escassez de capital de risco nas fases iniciais, à necessidade de maior profissionalização e partilha de conhecimento no ecossistema.
Com o papel positivo do Estado, através de iniciativas como o Portugal Tech e os programas do Banco Português de Fomento, há ainda um longo caminho a percorrer para garantir a sustentabilidade a longo prazo do ecossistema nacional.
PME Magazine (PME Mag) – Como tem evoluído o ecossistema de startups em Portugal nos últimos anos e que papel tem a Indico Capital desempenhado nesse crescimento?
Stephan de Moraes (S. M.) – Nos últimos 10 anos, houve uma grande evolução do ecossistema em Portugal. Em primeiro lugar, porque foram criadas muitas empresas e também porque existe um nível de ambição muito maior por parte dos nossos fundadores.
A chegada de muitas empresas estrangeiras e de muitos empregos altamente qualificados tem ajudado a preparar mais os recursos humanos e os fundadores portugueses para criar startups que pretendem resolver grandes problemas à escala global e, por isso, criar startups de sucesso.
Claro que é mais difícil hoje em dia ser inovador do que há 10 anos, quando não existia tanta competição em termos de mobile apps ou de soluções software-as-a-service, era mais fácil ser competitivo do que hoje em dia na época da inteligência artificial e do deep tech. Mas ainda assim temos um ecossistema mais complexo em que os fundadores têm mais informação e em que há muito mais capital disponível.
A Indico Capital Partners tem tido, na minha opinião, um papel bastante importante. Foi o primeiro fundo independente institucional a ser lançado em Portugal em final de 2018, porque anteriormente a isso existiam apenas fundos ligados a bancos e ligados ao Estado, e pequenos fundos ligados a Business Angels, ou fundos de Growth Equity, que realmente não eram Venture Capital, e com o aparecimento da Indico, e posteriormente de mais alguns fundos de VC, passou a haver capital profissional, independente, disponível para as startups portuguesas.
PME Mag. – Quais são atualmente os principais desafios que as startups enfrentam em Portugal, desde a fase inicial até à escala internacional?
S. M. – Onde subsiste, talvez, o maior problema é na fase de early stage, nomeadamente no pre-seed, onde os fundos que existem no nosso país não têm incentivo para participarem nessa fase de desenvolvimento das empresas, que é uma fase crucial, e não têm esse incentivo porque o tipo de capital que está dentro dos fundos de venture capital portugueses é de investidores que não tem um perfil de risco tão elevado como seria necessário no pre-seed, ou as condições ligadas a esse capital desincentivam a aposta no early stage.
Portanto, ainda há um longo caminho a percorrer, tanto na disponibilidade de capital pre-seed, como depois na disponibilidade de capital nas fases mais à frente de desenvolvimento das empresas. O principal desafio do ecossistema não está tanto na falta de existência de startups, está mais na falta de capacidade constante dos fundos portugueses de levantarem capital junto de investidores que compreendam e aceitem o perfil de risco necessário para as diferentes fases. E, para isso, é preciso capital privado institucional e é preciso que os instrumentos de apoio aos fundos e de investimento dos fundos de origem pública tenham menos condicionantes para que o capital possa ser aplicado de forma mais livre e com melhores retornos para todos os envolvidos.
Para além dos desafios de encontrar capital disponível nas diferentes fases, nomeadamente no pre-seed, as empresas portuguesas enfrentam por vezes um desafio de falta de competências em deep tech, falta de recursos humanos qualificados nas áreas de vendas e marketing, e por vezes ainda alguma falta de conhecimento em fundraising, e também no que toca ao processo de internacionalização.
Ao contrário de outros ecossistemas onde existem já muitas empresas de sucesso e muitos êxitos de unicórnios locais, em Portugal, apesar de termos muitos unicórnios ainda houve poucos êxitos, e portanto não há ainda tantos role models disponíveis e não há uma partilha de conhecimento tão profunda como noutros ecossistemas, o que leva a que os empreendedores portugueses, por vezes, ainda não se comparem favoravelmente com empreendedores de hubs internacionalmente mais desenvolvidos.
Mas há algo em que Portugal é muito bom, que é o facto de que os nossos empreendedores, além de serem tecnicamente competentes e de trabalharem arduamente, têm um nível de inglês muito elevado, o que facilita a internacionalização e têm um foco global desde o dia número um pela falta de existência de um mercado local de tamanho adequado, e portanto creio que há muito boas perspectivas para continuarem a surgir mais empresas de sucesso.
PME Mag. – Que critérios a Indico valoriza mais quando decide investir numa startup?
S. M. – Há vários critérios a ter em consideração quando ponderamos investir numa startup.
Iniciamos o processo com uma análise do problema que a empresa está a tentar resolver e de que forma a solução que apresentar difere das outras soluções que existem no mercado. Esta análise inicial é crucial, e auxilia na distinção de se a empresa tem potencial para ser bem sucedida ou não.
Em seguida, é importante perceber a sua integração no mercado e qual a possibilidade de crescimento. Dado que, por muito inovadora que possa ser uma startup, isso não implica que tenha acesso a um mercado amplo e pode também não ser um investimento adequado.
Um outro fator, e o mais difícil de avaliar, é se a equipa e a liderança à frente do projeto são as mais indicadas e se têm realmente a capacidade de desenvolver aquilo a que se propõem. Todos os anos são criadas startups inovadoras, no entanto, poucas conseguem ser bem sucedidas. São necessárias certas aptidões para conquistar um grande mercado internacional e tornar-se líder mundial numa categoria. Por isso, esta é a parte mais crucial, porque na verdade investimos em pessoas, e não em empresas.
PME Mag. – Como avalia o impacto dos fundos europeus e de iniciativas públicas como o Portugal Tech ou o Banco Português de Fomento no fortalecimento do ecossistema?
S. M. – Ao longo da última década, os sucessivos governos têm vindo a tomar iniciativas bastante positivas e bem intencionadas de forma a promover o ecossistema nacional. Têm vindo a fazê-lo promovendo eventos como o Web Summit e outros de caráter mais local, criando a Lei das Startups, promovendo as incubadoras, as aceleradoras, e facilitando o investimento em fundos, e promovendo a integração entre o sistema científico universitário, as empresas e as startups.
Acontece que, por muitas vezes, estas boas intenções acabam por ter também efeitos indesejados e, portanto, nem tudo corre sempre da melhor forma. Mas há uma experiência que tem vindo a ser consolidada da parte dos agentes do Estado e há uma colaboração próxima por via da Startup Portugal e por via também da Associação Portuguesa de Capital de Risco e de outros intervenientes no mercado. O Portugal Tech com origem no BPF e no Fundo Europeu de Investimento, em particular, foi muitíssimo importante para a criação dos primeiros fundos independentes e institucionais no país, nomeadamente a Indico, outras VCs, e subsequentemente, os programas do Banco Português de Fomento.
Os fundos recentemente apoiados pelo BPF, apesar de contarem com várias restrições decorrentes do facto dos fundos serem do PRR, também vieram impulsionar o ecossistema e este programa tentou criar oportunidades para que houvesse mais fundos e fundos mais capitalizados. Portanto, em geral, tem sido bastante positivo o impacto do Estado, mas há muito que se pode melhorar, nomeadamente, reduzir a dificuldade do ecossistema nacional e europeu em captar fundos privados de forma constante para os fundos de capital de risco de venture capital.
Neste tópico em particular, o que é fundamental é que as futuras iniciativas de capitalização de fundos derivadas de dinheiro público tenham menos restrições para que esse dinheiro seja compatível com o dinheiro e capital privado e que sejam criadas condições para que os investidores institucionais portugueses invistam ou sejam incentivados a investir em fundos, porque nós não podemos ter um ecossistema apenas dependente do capital público, porque não é assim que os melhores ecossistemas do mundo funcionam, funcionam com base em capital privado, com o mínimo de restrições possíveis.
PME Mag. – Que setores ou tendências tecnológicas vê com maior potencial de crescimento em Portugal nos próximos anos?
S. M. – Portugal não vai passar à margem da grande revolução de inteligência artificial que está a ocorrer globalmente. E é evidente que a inteligência artificial é composta por diversos componentes-base, nomeadamente a infraestrutura física e software, data centers, questões energéticas, modelos e aplicações, etc. O que consequentemente significa que existem oportunidades em todas essas categorias e também na vertente da cibersegurança, já que, no futuro, a IA estará presente em todos os sistemas de informação e tecnologias. Portanto, acredito que essa será a principal tendência da próxima década e as oportunidades para as startups portuguesas estarão intimamente relacionadas com a inteligência artificial e com estas categorias que acabei de descrever. Venture Capital (Capital de Risco) é um tipo de financiamento que envolve investimentos em negócios emergentes e com alto potencial de crescimento. As empresas que recebem esse tipo de investimento são geralmente startups que possuem um modelo de negócio inovador e disruptivo, com potencial de expansão a curto prazo. A Indico Capital Partners é uma sociedade gestora de capital de risco em Venture Capital em Portugal, gerindo atualmente €225 milhões dedicados ao investimento em startups nas áreas de Tecnologias de Informação e Economia Azul. O foco está em projetos com elevado potencial de crescimento e ambição global. Até ao momento, a Indico realizou €105 milhões em investimentos em 51 startups, que, em conjunto, angariaram mais de €2 mil milhões junto de investidores nos EUA e na Europa.
A liderança da Indico Capital Partners é constituída por seis Partners: Stephan de Moraes (Managing General Partner), Ricardo Torgal (General Partner and CFO), Cristina Fonseca (General Partner), Rui Rodrigues (Partner), Sofia Egídio (Partner and General Counsel) e André Almeida Santos (Partner).
Fonte: PME Magazine
