10 perguntas a Joana Franco

Published on May 26, 2023

Joana Franco tem 30 anos e realizou a licenciatura e mestrado no IST, em Engenharia Naval e Oceânica. Embora a sua especialização tenha sido em Plataformas Offshore, começou por estagiar aquando da licenciatura no Porto de Sines e nos Estaleiros Navais de Peniche, em gestão portuária e construção naval, respetivamente. Começou a sua carreira profissional em uma consultora naval, e é atualmente gerente da VETUS em Portugal, uma empresa internacional que concebe sistemas para navios. Amante do mar, tendo já sido nadadora-salvadora e atual praticante de mergulho, adora viajar para lugares pouco convencionais.

Porquê o Técnico?

O Instituto Superior Técnico é sinónimo de Engenharia. É uma faculdade conhecida internacionalmente, com reputação, onde muitos dos seus engenheiros são postulados por entidades de renome. Ainda que por razões menos apelativas, é uma universidade que nos ensina a ser autodidatas e que nos obriga a despertar o sentido critico.

Como mulher, como foi estudar no Técnico?

Ainda que o meu curso seja maioritariamente constituído por homens, nunca pensei muito acerca desse tema, pelo menos, durante a faculdade. Houve sempre entreajuda e nunca senti qualquer tipo de discriminação por ser mulher. Obviamente que no ramo de trabalho, onde nos deparamos com pessoas de idades e, consequentemente, mentalidades diferentes, não acontece o mesmo. Em construção naval, por exemplo, penso que sejam necessários alguns anos para que uma mulher se possa sentir confortável em um estaleiro. É uma questão maioritariamente geracional, na minha opinião. Ainda assim, se nós, mulheres, arriscarmos por essa vertente, revindicando um pouco do nosso espaço, tornando a nossa presença um hábito, penso que podemos acelerar um pouco esse processo.

Em que atividades extra-curriculares esteve envolvida?

Sempre tive pequenos part-times enquanto estudava e, embora hoje perceba que possa ter sido uma desculpa, o IST acoplado ao trabalho, nunca me deixou usufruir de muito tempo livre. Apesar disso, fui cantora numa orquestra durante parte da minha licenciatura. Sempre gostei de cantar e durante as horas de ensaio, conseguia abstrair-me dos estudos. No entanto, sentia que os ensaios e os espetáculos começavam a tirar tempo para a faculdade, pelo que decidi sair. Assim, continuava a realizar outras atividades independentes de calendarização como exercício, mergulho, viagens, política e leitura.

Qual foi a decisão mais difícil que alguma vez teve de tomar?

Ter abdicado do ramo militar, onde tinha o objetivo de ser Oficial de Mecânica, na Marinha, foi a decisão que mais me marcou. Sempre me fascinou a junção entre aptidão física, psicológica, disciplina, rigor e sabedoria. Ter deixado essa oportunidade para trás mudou completamente a minha vida. Ainda assim, na altura, com a informação que tinha, foi a opção mais correta. Foquei-me assim em um novo objetivo: trabalhar na Austrália em plataformas offshore, caminho que me levou ao IST... Ora, acontece que no exato momento em que acabo o curso, dá-se a Covid-19 e com isto, uma nova lei acerca da nacionalidade do país, deixou-me de mãos atadas, tendo decidido desistir dessa meta... Atualmente olho para trás e não me arrependo de ambas as decisões, até porque gosto de pensar que são as nossas escolhas que nos definem e estou bastante feliz com elas.

Quais têm sido os grandes desafios da sua carreira?

Trabalhar num estaleiro, num cruzeiro de mais de 200 metros, durante 3 meses da época da Covid-19: este foi, até hoje, o maior desafio da minha carreira. Sendo a única mulher a trabalhar no navio, numa posição de trabalho difícil de reger, foi necessária alguma ponderação. O facto de fazer todas as refeições e de dormir no navio de segunda a sexta-feira durante tanto tempo, foi complicado de gerir. Ainda assim, e ainda que tenha havido uma ou outra situação mais complicada de moderar pelo facto de ser mulher, foi uma experiência enriquecedora, quer em termos de conhecimentos técnicos, quer em aprendizagem pessoal.

Atualmente, como é um dia típico para si?

O meu dia a dia varia bastante… Por um lado, o trabalho técnico, onde dimensiono sistemas e contacto diretamente com estaleiros navais, implementando os desenhos 3D para o cliente após os cálculos. Por outro, o trabalho comercial: aqui, tenho sorte em viajar com frequência, representando a empresa, sendo o elo entre a marca e o cliente. Gerir e perceber de que maneira/estratégia podemos diferenciar a marca e ajudar o cliente a encontrar soluções, é o que mais gozo me dá. Não gosto de monotonia pelo que tenho sorte em ter um trabalho bastante diversificado.

Quais são os seus planos para o futuro?

Não quero parecer uma pessoa acomodada, mas uma vez que gosto do meu atual trabalho, agradar-me-ei prosseguir na VETUS, onde continuo a ter prospeção de crescimento. Sinto-me afortunada por trabalhar para uma empresa internacional no meu país. Futuramente, e sendo que o meu gosto e conhecimento pela politica tem vido a aumentar, gostaria de, um dia, poder vir a fazer a diferença. Temos uma grande extensão de mar…. Há que implementar novas leis e melhorar as já existentes aplicando, por exemplo, apoios onde estes façam sentido. O governo necessita urgentemente de pessoas com experiência no campo e conhecimento de causa. Precisa de entendidos na matéria que possam debater leis no que diz respeito ao Ministério do Mar. Gostaria de, um dia, partilhar ideias e fazer parte de tomadas de decisão no que a esse campo diz respeito.

Que conselhos daria aos estudantes atuais?

Eu nunca fui uma aluna estudiosa/inteligente e/ou exemplar com métodos de estudo delineados e calendários definidos… Ainda assim, o que posso dizer aos alunos atuais é que se tentem focar o máximo possível durante as aulas. Levem à risca as aulas teóricas e práticas. Estudem por vocês, pelo vosso conhecimento, e não apenas para passar à cadeira. Esse mindset vai fazer toda a diferença. Criem grupos de estudo e ajudem-se uns aos outros. Se alguma cadeira e/ou projeto não correr como esperado, não desmotivem, por vezes é importante aceitar, que dói menos, para que tenham uma mente mais plena e saudável. Se não é desta, será para a próxima! Façam da persistência e perseverança companheiras sempre presentes.

De que mais se orgulha na sua vida?

Orgulha-me que as conquistas profissionais pelas quais passei tenham sido um reflexo da minha capacidade pessoal em lidar com desafios e aptidão em enfrentar os problemas que me foram apresentados no caminho. No entanto, fugindo um pouco do tema académico e porque aquilo que somos é muito mais importante que qualquer carreira, posso dizer que me orgulho bastante da pessoa que sou hoje tentando sempre reger a minha vida consoante o que penso estar correto com os valores que me foram passados. Orgulho-me das amizades que escolhi e das pessoas que me rodeiam porque, no final de contas, também elas são um pouco o reflexo daquilo que eu sou.

Tem uma citação ou frase favorita?

Ui, tenho tantas… ainda assim, neste contexto e dando continuidade à resposta anterior, talvez a que mais gosto e que levo comigo “no bolso” seja uma citação do montanhista Nimsdai Purja, autor do livro Byond Impossible: “I have to compete against myself to be better than who I was yesterday.” Afinal de contas, nós somos os nossos próprios obstáculos.