10 perguntas a Carolina Passos

Published on May 12, 2023

A Carolina Passos Anishetty tem 42 anos, licenciou-se em Arquitectura em 2003, no Técnico com parcerias em algumas cadeiras com o MIT durante o último ano do curso. É natural de Lisboa, trabalhou no Reino Unido durante grande parte da carreira profissional e mais recentemente na Islândia. Tem mais de vinte anos de experiência multidisciplinar na entrega de edifícios complexos e projectos de infraestrutura. Como arquitecta, especializou-se em projectos comerciais e de transporte, trabalhando desde a concepção de projecto até a pormenorização e a construção em uma variedade de projectos premiados, incluindo a loja de aprendizagem sustentável M&S Cheshire Oaks. Em 2014 foi shortlisted para Mel Starrs Sustainability Awards.  Mais tarde como Design Manager ou Technical Services Lead, completou a sede da Google, da Universal Music e da Apple em Londres. A Carolina especializou-se em projectos de grande escala e com uma grande componente de Sustentabilidade, Net Zero Carbon e Tecnologia. A experiência nos projectos onde participou levaram-na à posição de Diretora de Operações para a Mace Group, uma empresa internacional de Consultoria e Construção sediada em Londres, no Reino Unido.

Porquê o Técnico?

Porque era a única escolha para mim. Concorri à Faculdade de Arquitectura em setembro de 1998 e fui selecionada. Não estava feliz com a ideia da escola de Arquitectura. Apesar de sempre sonhar em me licenciar na área. Quando as candidaturas para o primeiro curso de Arquitectura abriram em segunda vaga no mesmo ano no Técnico, as estrelas alinharam-se.

Como foi estudar no Técnico? (Ou como mulher, como foi estudar no Técnico)?

Estudar no Técnico foi uma aventura da qual me lembro com saudades. Foram os anos académicos mais exigentes que poderia ter tido com muita pressão posta em mim mesma para conseguir tirar o melhor do curso. Sempre tive o objetivo de me licenciar o mais rapidamente possível com os melhores resultados possíveis. E foi o Técnico que me proporcionou isso.

Ser mulher faz diferença? Não achei que tenha feito diferença nenhuma ser mulher, portanto adorei estudar no Técnico e ser reconhecida pelo trabalho que fazia para as diferentes cadeiras.

Ser mulher deve fazer diferença? Claro que não. Temos de ser personalidades competentes naquilo em que nos licenciamos. Tudo o resto são pormenores. Quero acreditar que estamos no século XXI, onde gender issues não são problemas prevalentes em set ups universitários.

Qual foi a melhor parte do seu curso? E a mais desafiante?

A melhor parte é difícil de escolher. A vida académica ensinou-me muito. Ensinou-me a crescer, ensinou-me a sobreviver e a apaixonar-me por áreas em que acredito muito. A parte mais desafiante do técnico foi gestão: gestão de tempo, gestão de entregas, gestão de outputs e principalmente gestão de expectativas (minhas e de outras pessoas)!

No Técnico, teve alguma figura inspiradora? Quem e porquê?

Havia/ Há muitas figuras inspiradoras no Técnico. Escolhendo algumas, deixamos muitas outras de parte. Todos os professores de Arquitectura marcaram muito por serem todos muito diferentes e trazerem uma riqueza enorme ao curso e aos projectos que íamos descobrindo.

Se tivesse de nomear alguns, teria que ser o Professor José Pinto Duarte, que me orientou no trabalho de fim de curso e nos apresentou uma realidade muito maior do que Portugal. A professora Teresa Heitor por ter acreditado no Curso de Arquitectura e deixar-nos ser a turma experimental do Técnico. O professor Manuel Vicente e Francisco Teixeira Bastos porque a excentricidade é tão importante! O professor João Caldas e Manuel Correia Guedes porque tanto História como Sustentabilidade sempre foram áreas muito interessantes para mim e ficaram na memória.

Qual é a sua melhor recordação do Técnico?

A melhor recordação do Técnico são as emoções que ficaram de tantas histórias vividas nos 5 anos de curso. Lembro-me com saudades das discussões com os colegas a horas tardias sobre metafísicas de conceitos e desenho, os argumentos que criávamos, debatíamos e que eram tão importantes e enriquecedores. Lembro-me dos vários estudantes de engenharia que vinham envergonhados pedir réguas emprestadas para espiar a turma de futuros arquitectos. Lembro-me de subir a Alameda com maquetes de projectos maiores do que a minha capacidade física e ter que parar cinco ou seis vezes antes de chegar ao Pavilhão de Civil!

Lembro-me do meu primeiro dia no Técnico, a subir a mesma Alameda onde alguém se lembrou de por um grande painel sobre o edifício central que lia: "Entram os bons, saem os melhores" e sentir-me intimidada, porque para entrar em Arquitectura o esforço é grande! No meu último dia do Técnico, a descer as escadas de Civil, lembrei-me desta frase e desse primeiro dia e apercebi-me de que era uma personagem muito diferente daquela que subiu a Alameda no primeiro dia nesta escola.

Pode falar-nos um pouco sobre o início do seu percurso profissional?

Desde que me lembro que sempre quis ser arquitecta. Não sei porquê, nunca tive ninguém nessa área muito perto da minha infância, mas foi sempre algo que soube que iria acontecer desde os meus 6 anos de idade. Cidades, edifícios, estruturas, materiais e espaços foram sempre aspetos muito importantes para mim.

Ainda durante o curso, tive o privilégio de ser convidada para fazer um estágio na Sua Kay Architects em Lisboa por um dos meus professores de quarto ano – Professor Mário Sua Kay. Este estágio abriu-me portas para o início de carreira. Ao completar o curso, voltei a trabalhar na Sua Kay e conheci diretores fantásticos e colegas que ficaram para a vida. Foi nesse mundo que saltei para a CPU arquitectos em 2004 com uma das diretoras que conheci no meu estágio. Em 2006 tive a oportunidade de me juntar à Atkins Global no Reino Unido porque por coincidência um dos colegas com quem trabalhei em Portugal me recomendou para liderar a renovação de estações de metro em Londres. Foi em Londres que me encontrei a nível profissional.

Fale-nos um pouco sobre o trabalho que está a desenvolver atualmente.

Com a Mace, comecei e entreguei com sucesso o desenho e construção do Envelope e o Núcleo de Estruturas e Serviços de todos os escritórios, incluindo a sede da Apple na reconstrução da central elétrica de Battersea. Mais recentemente, fui colocada na Islândia para desenvolver a visão estratégica de Serviços Técnicos, Sustentabilidade e BIM para os próximos 25 anos da expansão do Aeroporto Internacional de Keflavik, onde me encontro até junho de 2023.

Quais têm sido os grandes desafios da sua carreira?

Há sempre três tipos de desafios na minha carreira. Desafios técnicos, desafios culturais e desafios de desenvolvimento pessoal.

Como Arquitecta ou Design Manager a liderar projectos de grande escala, os problemas técnicos acabam por ser geralmente muito complicados, mas também muito necessários para o dia a dia de qualquer equipa. É revigorante tentar responder e encontrar as soluções corretas para cada desafio e projecto.

Desafios culturais são talvez os mais estranhos. Tentar ajustar a novas culturas, clientes e experiências vai sempre requerer um nível de energia e aprendizagem muito grande para conseguir desenvolver o meu trabalho da melhor forma possível. Infelizmente, aprendemos por tentativa e erro.

Em relação a desafios de desenvolvimento pessoal, o maior desafio para mim sempre foi e será sempre encontrar o balanço entre a minha vida pessoal e a minha vida profissional. Encontrar o switch off button será sempre o maior desafio.

Que conselhos daria aos estudantes atuais?

Estudem, divirtam-se, tentem o vosso melhor, não tenham medo. Façam perguntas. Mas mais que tudo, sonhem e acreditem em vocês próprios!

Tem uma citação ou frase favorita?

A minha frase preferida terá que ser sempre: "Seja o que for que queiramos fazer, vamos fazer o melhor possível". Gosto de a usar nas minhas equipas e nos trabalhos e clientes que giro sempre que possível. É preciso querer e é preciso paixão para tudo o que nos dispusermos a fazer.