
The Traveling Anatomist: alumnus do Técnico revisita Steno e a construção da ciência moderna
Descubra o The Traveling Anatomist, o mais recente livro de Nuno Castel-Branco, alumnus do Instituto Superior Técnico. Partindo da trajetória de Nicolau Steno, uma das figuras mais influentes da ciência do século XVII, o autor conduz-nos numa viagem pela construção da ciência moderna, revelando como o conhecimento científico resulta do encontro entre pessoas, disciplinas e culturas. A obra foi recentemente destacada pelo The Times Literary Supplement, uma das principais referências mundiais da crítica literária e académica.
Da ciência à história da ciência
Nuno Castel-Branco concluiu o Mestrado Integrado em Engenharia Física Tecnológica no Instituto Superior Técnico em 2014, com enfoque em cosmologia e física teórica. Foi, porém, ao longo desse percurso académico que o seu interesse começou a deslocar-se da forma como a ciência explica o mundo para uma outra questão: como determinadas formas de conhecimento se tornam possíveis ao longo da história. Este interesse levou-o aos Estados Unidos, onde realizou o doutoramento em História da Ciência e Tecnologia na Johns Hopkins University. A sua carreira tornou-se desde então altamente internacional, com passagens por instituições como a Harvard University (EUA) e o Max Planck Institute for the History of Science (Alemanha), sendo atualmente investigador no All Souls College, colégio da Universidade de Oxford dedicado exclusivamente à investigação.
O seu trabalho atual centra-se na história da ciência entre os séculos XVI e XVII, analisando como a ciência moderna emergiu num contexto marcado por viagens, comércio, religião e encontros culturais. Esta investigação culminou agora na publicação de The Traveling Anatomist, pela University of Chicago Press.
Em paralelo, Nuno escreve para públicos mais alargados através do seu Substack Stories of Science e em meios como o The Wall Street Journal, o The Washington Post e a Scientific American, com o objetivo de tornar a história da ciência mais acessível. Esta prática reflete uma convicção que orienta o seu trabalho: a de que a história da ciência “ajuda-nos a compreender melhor o mundo em que vivemos e a forma como o conhecemos”.
The Traveling Anatomist
A ideia para The Traveling Anatomist surgiu durante o doutoramento de Nuno na Johns Hopkins University, na sequência de um seminário de História da Medicina dedicado a Nicolau Steno. Conhecido atualmente como um dos fundadores da geologia, Steno era visto pelos seus contemporâneos, no século XVII, sobretudo como anatomista e matemático. Esta aparente mudança de perspetiva despertou no autor uma questão central: como é que uma figura tão influente no estudo do corpo humano acabou por ser quase esquecida nessa área?
Foi a partir desta pergunta que nasceu a obra. Ao acompanhar o percurso de Nicolau Steno pela Europa, da Dinamarca à Itália, o autor mostra como o cientista conciliava diferentes áreas do saber, da anatomia à matemática, da física à geologia, numa época em que as fronteiras entre disciplinas eram ainda pouco definidas. Esta integração de conhecimentos antecipou abordagens que hoje associamos a áreas como a biofísica, evidenciando como muitos avanços científicos surgem precisamente do cruzamento entre diferentes matérias. Mais do que retratar a trajetória de uma figura histórica, The Traveling Anatomist propõe uma reflexão sobre a própria natureza da ciência, demonstrando que a ciência não evolui de forma linear ou isolada, mas através da colaboração entre pessoas, do intercâmbio entre disciplinas e do encontro entre diferentes culturas.
Nuno refere ainda que a ideia do livro foi ganhando forma quando começou a trabalhar diretamente com manuscritos e cartas originais de Steno preservados em arquivos europeus, onde acabou por descobrir uma história muito mais rica e humana sobre Steno – e o nascimento da ciência moderna – do que aquela que normalmente se conhece.
Reconhecimento pelo The Times Literary Supplement
O The Times Literary Supplement (TLS) é uma das mais prestigiadas publicações literárias e académicas do mundo, com origem no Reino Unido e mais de um século de história. Conhecido pelas suas recensões críticas de livros nas áreas da literatura, história, filosofia e ciência, tem distinguido ao longo do tempo obras de autores como George Orwell, Virginia Woolf e T. S. Eliot. O TLS é amplamente reconhecido como um dos principais espaços de debate intelectual, onde The Traveling Anatomist foi recentemente destacado numa recensão de Violet Moller, historiadora e escritora britânica. Moller descreve o livro como uma “obra de investigação impressionante e original” e afirma que a sua mensagem central – “no estudo da natureza, é bom não estar preso a disciplina nenhuma” – é profundamente atual.
A inclusão de The Traveling Anatomist neste contexto foi, para o autor, uma surpresa completa. Nuno não esperava que o livro fosse rapidamente reconhecido fora de círculos académicos, sobretudo tratando-se de uma investigação independente publicada por uma editora universitária. Refere ainda que o aspeto mais marcante desta distinção foi o facto de a recensão ter captado precisamente a dimensão humana que procurou transmitir ao longo da obra: a importância da mobilidade, da colaboração e da amizade no trabalho científico, tanto no século XVII como hoje.
“Depois de muitos anos sozinho em arquivos e bibliotecas, há algo de quase irreal em perceber que esse trabalho está a entrar em conversas intelectuais mais amplas, tanto no mundo dos livros e da história como da ciência”, reflete Nuno.
Convite à leitura
Ao longo de The Traveling Anatomist, Nuno Castel-Branco convida o leitor a olhar para a ciência como uma atividade profundamente humana. Apesar de frequentemente ser percecionada como algo abstrato ou solitário, a sua história revela o contrário. Nicolau Steno circulava entre universidades, cortes, oficinas e espaços informais de aprendizagem, construindo redes de confiança intelectual que foram essenciais para o desenvolvimento do seu trabalho e para o avanço do conhecimento científico da época.
É neste contexto que Nuno Castel-Branco convida a comunidade Técnico Alumni a cultivar a curiosidade intelectual e explorar a história da ciência. Numa realidade em que muitos dos desafios científicos e tecnológicos exigem diálogo entre áreas diferentes, esta abordagem, humana e interdisciplinar, ganha particular relevância para quem estuda, investiga ou trabalha na ciência e na engenharia. The Traveling Anatomist recorda que o progresso científico nasce frequentemente do cruzamento entre pessoas, disciplinas e culturas – uma ideia que permanece especialmente atual para a comunidade do Técnico.
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