
10 perguntas a Tiago Aguiar
Tiago Aguiar é licenciado e mestre em Engenharia Biológica pelo Técnico, com experiências internacionais em Erasmus na Université Catholique de Louvain na Bélgica e programas BEST.
Iniciou a carreira em Portugal no IBET (Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica) em terapias celulares e, nos últimos 12 anos, tem trabalhado no desenvolvimento e na produção em escala de terapias celulares e genéticas, focando-se em hematologia, oncologia, e em doenças genéticas raras, adquirindo experiência em empresas como Autolus Therapeutics e Orchard Therapeutics. Tem também várias publicações na área de terapias celulares e genéticas.
Atualmente é Senior Manager de External Manufacturing na Vertex Pharmaceuticals, em Londres, onde vive e trabalha há 10 anos, supervisionando a produção de terapias avançadas como o Casgevy e garantindo que estas terapias chegam com segurança e qualidade a pacientes por todo o mundo.
Porquê o Técnico?
Sempre gostei muito de ciências, matemática, e engenharia. Sendo o Técnico a melhor universidade de engenharia do país, onde teria a possibilidade de estudar todos os meus tópicos de interesse, foi uma escolha óbvia. Saber que o nível de exigência é muito alto também foi sem dúvida uma motivação para mim.
Como foi estudar no Técnico?
Estudar no Técnico foi exigente, mas também um enorme motivo de orgulho. Ser constantemente desafiado pelos professores e colegas deu-me energia para evoluir e aprender cada vez mais. Nem sempre foi fácil e algumas cadeiras pediram muito esforço e persistência, mas aprendi que com dedicação conseguimos alcançar os objetivos. Mesmo que nem todos os temas sejam diretamente usados na minha carreira atual, o Técnico deu-me ferramentas essenciais: capacidade de trabalho, método de estudo e a habilidade de resolver problemas de forma prática e estruturada.
O que mais leva dos seus tempos de Técnico, nas aulas ou fora delas?
Levo muito, tanto dentro como fora das salas de aula. Academicamente, a diversidade de áreas que estudei deu-me uma base sólida e uma perspetiva científica abrangente, que só mais tarde percebi ser diferenciadora no mundo profissional. Aprender rapidamente, analisar problemas complexos e encontrar soluções estruturadas são competências que me acompanham até hoje. A nível pessoal, levo sobretudo as pessoas. As amizades que construí no Técnico continuam a ser uma parte muito importante da minha vida. Estar rodeado de colegas de todo o país alargou os meus horizontes e ensinou-me o valor da colaboração e do apoio mútuo.
Algo que considero essencial: sair de Portugal e ver o que há além-fronteiras. Participar num programa do BEST na Grécia e fazer Erasmus na Bélgica foi decisivo para crescer, ganhar confiança e abrir portas para o meu percurso internacional. Por isso, aproveitem ao máximo estas oportunidades que o Técnico oferece porque mudam completamente a forma como vemos o mundo e o nosso futuro.
Qual foi a melhor parte do seu curso? E a mais desafiante?
Para mim, a melhor parte do curso foi também a mais desafiante: a enorme variedade de temas que tive de estudar. Passar na mesma semana de Química Orgânica para Física, ou de Biologia Molecular para Engenharia, exigiu adaptação e organização constantes.
Nos primeiros anos, muitas vezes era só seguir cadeira a cadeira sem ter uma ideia clara do futuro. Mas essa fase ajudou-me a descobrir aos poucos o que realmente gostava. No fim, experimentar áreas tão diferentes permitiu-me construir um percurso académico rico e perceber com mais clareza a direção profissional que queria seguir.
Qual é o seu lugar preferido no Técnico e porquê?
O Arco do Cego conta como Técnico, certo?
Pode falar-nos um pouco sobre o início do seu percurso profissional?
O meu percurso começou em Portugal, depois do meu Erasmus na Bélgica. Para a tese de mestrado, a professora Cláudia Lobato da Silva ajudou-me a entrar em contacto com o IBET, em Oeiras, onde acabei por fazer a minha tese e dar os primeiros passos em terapias celulares. Depois da tese fiquei no IBET como bolseiro de investigação durante dois anos, o que me deu uma base científica e prática muito sólida. Esta experiência inicial abriu-me portas para ir para fora, e comecei a trabalhar na Autolus Therapeutics em Londres. Já lá vão 10 anos, e desde então tenho construído a minha carreira em terapias celulares e genéticas, sempre motivado por poder contribuir para tratamentos inovadores que fazem diferença na vida das pessoas.
Fale-nos um pouco sobre o trabalho que está a desenvolver atualmente.
Atualmente trabalho na Vertex Pharmaceuticals, em Londres, como Senior Manager de External Manufacturing na área de Cell & Gene Therapy. O meu foco é garantir que terapias celulares e genéticas avançadas, como o Casgevy, são produzidas de forma fiável e sempre em conformidade com as exigências regulatórias.
Supervisiono a produção de lotes clínicos e comerciais, gero desvios e alterações de processo, e trabalho muito próximo dos parceiros externos (CDMOs) para garantir que tudo corre como planeado. Também atuo como especialista técnico, apoiando as equipas de produção na resolução de problemas e tomada de decisões críticas.
O papel é muito dinâmico e leva-me a viajar bastante pela Europa, estar no terreno, acompanhar processos de perto e criar relações de confiança com os nossos parceiros. Mistura ciência, engenharia, gestão de projetos e trabalho com pessoas, e é extremamente gratificante saber que estou a contribuir para tratamentos que mudam vidas.
Atualmente, como é um dia típico para si?
Não há propriamente um "dia típico", mas alguns elementos fazem parte da minha rotina: grande parte do tempo é passado em reuniões e conversas técnicas com equipas internas e parceiros externos, a alinhar prioridades, resolver problemas e planear produção. Também passo tempo a coordenar as áreas de qualidade, produção, supply chain e equipas técnicas e, claro, a lidar com uma quantidade quase infinita de emails.
Quando viajo, o ritmo muda: passo mais tempo nos locais de produção, a trabalhar lado a lado com as equipas e a acompanhar operações críticas. Gosto desta parte, porque o apoio presencial ajuda a resolver problemas muito mais rapidamente e fortalece a relação com quem executa os processos.
No fundo, os meus dias misturam ciência, resolução de problemas, gestão de projetos e colaboração com pessoas de várias áreas e países, o que torna o trabalho exigente, mas muito estimulante.
Que conselhos daria aos estudantes atuais?
O meu conselho principal é: encontrem um equilíbrio. Estudar e aproveitar ao máximo as aulas é super importante, mas esta é uma fase única da vossa vida. Por isso, conheçam vossos os colegas, vão aos arraiais, joguem à bola, experimentem coisas novas e não tenham medo de errar. Muitas das melhores memórias e aprendizagens fazem-se fora das aulas.
E aproveitem as oportunidades de ir para fora! Fazer Erasmus ou programas internacionais muda totalmente a forma como vemos o mundo. Portugal é fantástico, mas há muito mais lá fora e experiências incríveis à espera de quem se aventura.
Que palavra ou frase usaria para descrever os alumni do Técnico?
"Pensamento crítico", porque é isso que o Técnico nos ensina a levar para a vida e para a carreira.
