
10 perguntas a Jorge Oliveira
Jorge Oliveira, de 39 anos e natural de Braga, é licenciado em Engenharia Civil pelo Técnico e mestre em gestão de projetos pela Universidade Técnica de Lisboa. É ainda licenciado em Teologia Moral na Pontificia Università della Santa Croce em Roma e está atualmente a tirar um doutoramento em Teologia Moral sobre a avaliação moral do Empreendedorismo na Escola Austríaca de Economia e na Doutrina Social da Igreja. Gosta de correr e andar de bicicleta, tendo já completado 4 maratonas e 72 meias maratonas. Considera-se ainda um apreciador de arte.
Porquê o Técnico?
Sempre gostei de física e matemática e pensei que isso me levaria a ser engenheiro, algo que já era de família. Quando pensei nas melhores faculdades no país, pensei no Técnico. Fiquei contente quando entrei. O primeiro dia foi assustador: chega-se e olha-se para o Técnico como algo imponente, uma cidade. Hoje olho para o IST como uma Escola.
O que mais leva dos seus tempos de Técnico, nas aulas ou fora delas?
Tive excelentes professores e fiz amigos para a vida. Destaco também tantas pessoas que por “trás do palco” fazem com que tudo funcione: os funcionários da secretaria e administração, os empregados dos bares, as equipas de limpeza, os vigilantes. No outro dia estava num casamento de um colega de curso do Técnico a reviver as aulas, as noitadas para acabar os trabalhos, os jogos de futebol juntos, o fim dos exames… Do Técnico levei conhecimento e amigos para a vida.
Em que atividades extra-curriculares esteve envolvido?
Colaborei com o Jornal Diferencial com alguns artigos e revisão de textos. Aprendi muito com o Jorge Páramos e o José Miguel Delgado.
Também estive na Formula Student (FST) onde ajudei a desenvolver a apresentação Business do protótipo que se fazia nas competições internacionais de Hockenheim (Alemanha) e no Circuit de Barcelona-Catalunya (Espanha). Não era normal que alunos de Eng. Civil fizessem parte da FST, mas aceitaram-me com gosto. Guardo ótimas recordações de ter trabalhado com o André Cereja, o Alexandre Carvalho, João Catarino, o Miguel Guedes que fizeram um grande trabalho e deram os primeiros passos para os modelos elétricos. Estive recentemente no IST, no 111.º aniversário da Escola e foi comovente voltar a ver a equipa FST Lisboa com o mesmo espírito de há uns anos.
Qual é a sua melhor recordação do Técnico?
Não sei se esta é a melhor, mas foi uma importante. Lembro-me da disciplina de “Arquitectura”. É conhecida a tensão que às vezes existe entre engenheiros e arquitetos. Lembro-me que a professora nos pedia alguns exercícios que eu considerava absurdos. Um deles foi a conceção de um campo de refugiados (a nível de planeamento macro e de execução micro). Pretendia-se que pensássemos numa distribuição de espaços e a conceção de um modelo simples de habitação. Um dia disse à professora: “Isto é absurdo. É uma perda de tempo. Eu nunca vou fazer isto na minha vida”. A professora, com paciência, convidou-me a ler o diário de Anne Frank, livro que gostei muito e me ajudou a ambientar-me no contexto próprio de um refugiado. Fui fazendo o trabalho e aconteceu aquilo que dizia o Fernando Pessoa “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Gostei muito, fiz um modelo, trabalhei na maqueta e, sobretudo, tirei uma lição: há muitas coisas na vida que não servem para nada, são ‘inúteis’ e que tem muito valor porque nos abrem horizontes que nunca tínhamos pensado. Se não fosse por aquela professora não teria lido aquele livro. Aquelas aulas ajudam-me hoje a entender melhor as condições em que vivem os refugiados, especialmente aqueles resultantes dos conflitos internacionais como o da Ucrânia que vivemos.
Qual é o seu lugar preferido no Técnico e porquê?
O Bar de Civil. Lá acontecia tudo: estudo, trabalhos que se acabavam, combinar os planos fora do Técnico. Não me lembro de faltar às aulas para ver o DragonBall. Mas lembro-me dos cafés nas pausas da manhã que fortaleciam o espírito e nos davam ânimo. Também guardo boas recordações do LTI-Civil, onde trabalhávamos em equipa e podíamos fazer trabalhos com softwares avançados que eram muito caros. Não me posso queixar: sempre tive todos os meios para poder estudar e trabalhar.
Pode falar-nos um pouco sobre o início do seu percurso profissional?
Estive na Mota-Engil e acompanhei uma obra de construção de uma derivação de um adutor que provém de Castelo de Bode e de abastecimento a Lisboa. Passei depois para a Casais-Engenharia onde estive a trabalhar em diversos projetos, talvez o mais significativo tenha sido a renovação da Escola Alemã de Lisboa. Mais tarde enveredei por uma carreira na banca no BBVA onde estive dois anos. Aí percebi que uma pessoa do Técnico está preparada para muitos trabalhos diferentes, quase como se fosse um canivete suíço.
Depois transferi-me para Itália onde trabalhei no departamento económico central do Opus Dei, instituição da Igreja Católica de que faço parte. Estive sempre ligado às universidades e à educação. Fui responsável pelo Workshop de empregabilidade “Landing the Job You Want” para +300 estudantes em várias universidades: ESADE (Barcelona) FEUP e FEP (Porto) LUISS (Roma), NovaSBE, CLSBSE, AESE e ISCTE (Lisboa), UA (Aveiro), FEUC (Coimbra), entre outras.
Fale-nos um pouco sobre o trabalho que está a desenvolver atualmente.
A minha vida mudou radicalmente há uns meses, quando me foi colocada uma questão, talvez a mais importante da minha vida: "Estarias disposto a ser ordenado padre?". Nunca pensei ser padre. Achava mesmo que não era para mim. Gosto do mundo, da engenharia e da gestão. Depois de um processo de formação e discernimento de anos, a minha resposta foi "sim". Receberei, com mais 24 pessoas, a ordenação diaconal a 19/11/2022 e a ordenação sacerdotal a 20/05/2023 para a qual peço as orações de quem goste de rezar. Quando conto esta história, fazem-me muitas perguntas. Resolvi recolher algumas delas e dar-lhes resposta neste link.
Acho que o Técnico também me preparou para ser padre e estar sensível para desenvolver uma intuição sobre a grandeza de Deus. Os professores do Técnico desvelam a racionalidade que existe no mundo — que se demonstra em cada equação — e que nos leva a intuir o espírito do Criador. Sei por experiência que existem pessoas agnósticas ou ateias que respeito e a quem convido a dialogar profundamente sobre Deus. Assim como naquela aula de Arquitectura, acredito que a razão não científica que se entrevê na filosofia, literatura e estética, permite um acesso a verdades maiores, religiosas ou não, embora não por via laboratorial, mas sim pela reflexão laboriosa, dialogada, e sempre em aberto, mas que realmente alcança realidades.
A religião afirma uma verdade total, mas não é uma ameaça, pois a verdade sobre Deus que conhecemos na Bíblia é a de um Deus que é «razão». E, simultaneamente, «amor», coração que demonstrou ao longo da história uma bondade surpreendente para com os homens.
Gostava de dizer a toda a comunidade do IST (alunos, professores, funcionários) que estarão nas minhas orações.
Atualmente, como é um dia típico para si?
Vivo em Roma, onde estou-me a preparar para a minha ordenação sacerdotal no dia 20 de maio de 2023. Estou a fazer a minha tese de doutoramento na Pontificia Università della Santa Croce em Teologia Moral sobre a avaliação moral do empreendedorismo na Escola Austríaca de Economia e na Doutrina Social da Igreja. Tenho tempo de leituras, aulas de formação, workshops de experiências. E guardo um tempo para o desporto, um ponto importante na minha vida. Faço parte de uma equipa de atletismo em Saxa Rubra (Roma Norte) e preparámo-nos para as provas oficiais (meias-maratonas e maratonas) e tenho uma equipa de ciclismo para conhecer os lugares nas redondezas de Roma.
Quais são os seus planos para o futuro?
Penso voltar a Portugal e ser padre no meu país. Tenho grandes expectativas para a vinda do Papa na Jornada Mundial da Juventude de 2023. Gostava de poder ajudar muitas pessoas - também os colegas do Técnico - a desenvolverem atividades sociais e assim aproximarem-se de Deus com toda a liberdade.
Recordo as aulas de “Pontes” do professor António Reis. Insistia no dimensionamento minucioso dos pilares de uma ponte. Ajudava-nos a ser críticos sobre as soluções a que chegávamos. Isso também me faz pensar nas grandes questões da existência: “em que pilares está assente a minha vida?” “a minha vida tem uma estrutura, tem um sentido?”. Convido todos os alunos, crentes ou não, a fazerem a si mesmos essa pergunta e a aprofundarem, a colocarem os pilares da sua vida em algo firme.
Que conselhos daria aos estudantes atuais?
Acho que os atuais alunos são muito melhores do que eu. Sou eu que tenho muito a aprender deles. Prometo uma visita ao Técnico quando voltar a Portugal. E quero que saibam que têm um “colega” padre que rezará por vocês, para continuarem a fazer do Técnico uma das melhores escolas de engenharia da Europa.
