
10 perguntas a Rui Marcelino
José Rui Marcelino, nascido no Porto em 1970, aluno nº 32976, Licenciado em Engenharia Mecânica, ramos de Termodinâmica Aplicada, 1988-1993. Mestre em Design de Transportes pela Scuola Politecnica di Design, Doutorado em Design pela Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa. Fundador e CEO da Almadesign desde 1997, estúdio de design na área de transportes, produtos e interiores com mais de 800 projectos e 2 dezenas de prémios nacionais e internacionais. Docente e Coordenador do Mestrado em Design de Produto da FA – Ulisboa. Membro da direcção da AED, PFP, Fórum Oceano e COTEC. Membro do Conselho Consultivo do DEM do IST.
Porquê o Técnico?
Porque quando me aconselharam a estudar engenharia mecânica (em resposta a uma carta que enviei à Ferrari e à Pininfarina aos 14 anos) – disseram-me que a engenharia mecânica era uma boa base para os estudos que pretendia seguir em design de transportes. E este pareceu-me o Curso mais exigente e robusto que existia no país. E por acaso, era em Lisboa, não muito longe de casa.
Pode falar-nos um pouco dos seus estudos no Técnico?
Estudei Engenharia Mecânica, ramo de Termodinâmica Aplicada, porque tinha materiais, motores térmicos e aerodinâmica, algo que era importante para o design de transportes, que sempre foi a minha ambição. Na entrada do IST, levei com o habitual choque das Análises Matemáticas, e chumbei, pela primeira vez na vida, a Análise I e II. No primeiro ano, só me entusiasmei com Programação – onde acho que me safei com um 18 e, é claro, Desenho. Depois, tive de fazer as 4 “Análises” no ano seguinte. Na altura, mudava o regente, faziam-se as cadeiras…. Outras UC como Álgebra Linear, Matemática Aplicada à Engenharia Mecânica ou Electromagnetismo eram para mim pouco estimulantes e abstractas. Poucos Professores nos diziam para que servia aquilo… e eu gostava mais da aplicação pratica do que da teoria. Ainda hoje acho que falta ao IST um bom equilíbrio entre teoria e a prática. E, convenhamos, 3 a 5 horas seguidas a fazer cálculo num exame, era pedagógico?... Era a praxe do técnico.
Lembro-me também dos trabalhos de programação no VAX/VMS, do primeiro ano, em que fazíamos “enter” nas catacumbas e o grande VAX ficava a pensar 15 minutos sobre duas páginas de código…(e em outros 1000 utilizadores). O Curso começou a ser bem mais interessante quando chegamos à Aerodinâmica, Motores Térmicos, Gestão, Turbomáquinas, Gestão Energética, etc. E foi aí que consegui fazer subir um pouco mais a minha média. Como gostava muito de Aerodinâmica – tinha o lado teórico mas também o prático e experimental – acabei como investigador do projecto ARMOR, primeira aeronave robotizada do país, antes de ir fazer o Mestrado para Milão.
Como foi estudar no Técnico?
Foi sempre muito desafiante e muito exigente. Com um pouco de presunção, achávamos que fazíamos parte de uma elite – nem toda a gente conseguia entrar e aguentar o IST, e acho que ainda é assim – mas o preço do esforço era alto. O Técnico punha tudo em perspectiva: eu era considerado muito bom aluno no liceu onde estava. No IST eu era apenas um de muitos bons alunos lá da terra. E entre tantos “muito bons”, eu passei a ser um “médio”. Tudo passou a ser mais relativo e acabaram-se as peneiras. Para mais, estava na turma do Jorge Drumond, meu actual amigo de longa data, que terminou o Curso com média de 19. E então, ficava tudo muito relativo!
Quanto à parte social, apesar de na altura estar muito desequilibrado em termos de género (talvez por isso só existisse um bar…😊), foi uma experiência fantástica. Para além do Campus, vivia-se Lisboa.
O que mais leva dos seus tempos de Técnico, nas aulas ou fora delas?
Primeiro que tudo, a preparação para a vida: o trabalho muito duro, com sacrifício, muito para lá das matérias leccionadas, os conhecimentos de cálculo, de tecnologia e de gestão, que me servem até hoje. E como disse, apenas com pena de não ter mais Projecto. Recordo também do ambiente dos intervalos, e do grupo de colegas com quem comecei a dar-me para o resto da vida, das cervejas no único bar que existia (Central). E recordo algumas festas memoráveis que fiz com os meus colegas, fora do IST, de que ainda me lembro e não vou contar! E acima de tudo, foi isso: os amigos e colegas de turma. 50 ou 60 da mesma turma, com quem almoço quase anualmente, e os 10 mais próximos, com quem estou praticamente todas as semanas e que se tornaram os meus melhores amigos. Já lá vão 30 anos. Deve ser como na guerra: depois de uma experiência muito intensa, ganhamos amigos para sempre.
Mas a minha experiência no IST não terminou na licenciatura. Para alem de investigador do ARMOR, de 1993 a 1994, dei aulas aos primeiros cursos de aeroespacial (Aerodinâmica Assistida por Computador), fui docente do Mestrado em Engenharia de Concepção, então criado pelo prof. Manuel Heitor, e actualmente faço parte do Conselho Consultivo do DEM. Além disso, recorro frequentemente ao IST (LEMAC, Curso de Aeroespacial, etc.) em projectos de I&D com a ALMADESIGN e participei este ano num acordo de colaboração entre a FA/Design e o IST/Mecânica denominado Iniciativa Leonardo.
Qual foi a melhor parte do seu curso? E a mais desafiante?
A melhor parte foi a partir do quarto ano, quando comecei a trabalhar em coisas concretas, como aerodinâmica assistida por computador, tuneis de vento, ensaios de laboratório, etc. E pela primeira vez, vi coisas reais a acontecer. O ensino no IST sempre foi muito baseado na parte teórica, e chega a desmotivar muitos alunos até ao 3º ano. É uma espécie de praxe... Depois, no 4º e 5º ano, fica tudo mais fácil e interessante. O mais desafiante (mas não divertido) foi superar a excessiva carga das disciplinas centradas no cálculo - Álgebras e Análises Matemáticas - sem qualquer inspiração ou noção de aplicação. Para alguém que é visual, como eu, só encontrava motivação nos espaço em RN (comentário Geek).
Como disse, entrei em Engenharia porque o meu foco era fazer design. Por isso, cumprir o Técnico como ponto de passagem e formação de base era um grande sacrifício. Eu gostava era de Design (no sentido holístico)… Por isso, comprometi-me a fazer a licenciatura nos 5 anos mínimos, com nota suficientemente alta para o Mestrado (o que me pareceu um grande desafio), e felizmente, assim fiz. Com algumas dores, é certo. 😊
No Técnico, teve alguma figura inspiradora? Quem e porquê?
Tive muitas figuras inspiradoras. Para além de colegas como o Jorge Drumond e muitos dos meus colegas de turma, foram muitos os professores que me marcaram. Mas uma referência incontornável é o Prof. Vasco de Brederode (infelizmente falecido), que era o guru nacional da aerodinâmica, duríssimo, intransigente e exigente com todos, mas que me acolheu no seu grupo de investigação – projecto ARMOR, um dos primeiros UAV do mundo. Contra tudo o que tinha ouvido falar, foi um extraordinário chefe e mentor, tanto a nível pessoal como profissional. Penso que o seu maior problema era o excesso de exigência. Consigo e com os outros. Eu dei-me lindamente com ele, e aprendi com o ARMOR o que me veio a servir hoje para a área da mobilidade aérea urbana e para as aeronaves em que trabalha a Almadesign.
Fale-nos um pouco sobre o trabalho que está a desenvolver atualmente.
Actualmente sou CEO na ALMADESIGN uma empresa de design com 25 anos de actividade e uma equipa excepcional que gera produtos e serviços na área dos transportes, produtos e interiores – com mais de 800 projectos realizados a nível nacional e internacional; sou Professor de Projecto na Faculdade de Arquitectura Urbanismo e Design e Coordenador do Mestrado em Design de Produto, e faço parte da direcção do Cluster AED (Aeronáutica, Espaço e Defesa), PFP (Plataforma Ferroviária Portuguesa), do Fórum Oceano e da COTEC.
Como é que entrou na área profissional em que está agora?
Com muito esforço e batendo a todas as portas que podia. Aprendi que, mesmo quando as probabilidades são baixas, se não arriscamos, não petiscamos. 😊 É preciso algum arrojo e muita persistência. E nem tudo são sprints. Há muita corrida de fundo. Pela minha parte, sempre fui bastante proactivo, contactando de forma algo insistente as entidades com quem gostava de vir a trabalhar, seja como individuo ou como empresa. E isto vale para encontrar o estágio na Alfa Romeo, como para alargar o trabalho da Almadesign ao sector aeronáutico com a Embraer (hoje a nossa área mais forte).
Quais têm sido os grandes desafios da sua carreira?
Gerir a enorme quantidade de informação que me chega todos os dias, saber dizer que não (dificílimo), gerir pessoas sem prejudicar ninguém, ultrapassar as gigantescas politiquices que envolvem os negócios e a investigação no nosso país e ter determinação para levar até ao fim ideias e projectos que levam 2, 3, 5 anos a chegar ao fim. Apesar de tudo o que referi atrás. E principalmente gerir isso com a vida pessoal e familiar, que é o que me dá um nível superior de alegria e satisfação.
O que o faz ter orgulho em ser um alumnus do Técnico?
O que aprendi, numa escola que se sabe ser das mais exigentes do país e reconhecida internacionalmente, os amigos que aí fiz (incluindo professores), e que me dão um sentimento de pertença, e o facto de ainda colaborar com o IST em muitos dos trabalhos que realizo profissionalmente, o que corrobora a excelência do que lá se faz.
Que conselhos daria aos estudantes atuais?
Recomendo muito trabalho, paixão e persistência. Encontrar inspiração entre as matérias, por vezes muito áridas, do IST, e usar essas como motivação para as outras. E pedir ajuda e incentivo dos colegas (e vice-versa)! Sempre.
Que palavra ou frase usaria para descrever os alumni do Técnico?
Quem completou os estudos no IST será com certeza muito determinado, trabalhador, focado e esforçado. E terá sempre uma pequena (ou grande) paixão por tecnologia e engenharia. Mesmo que lhes chamem Nerds. 😊 Mas ser Nerd em alguma coisa, também é bom.
