
10 perguntas a Francisco Quartin
Francisco Quartin de Macedo concluiu o Doutoramento em Estatística e Processos Estocásticos em 2006, tendo feito também licenciatura e mestrado no Técnico. Começou a carreira a modelar desportos para a casa de apostas bet365, continuando como trader de apostas desportivas numa hedge fund, seguindo depois para a blockchain.com, onde foi Lead Trader e geriu o portfólio de $300M da empresa (liderando a equipa de Trading). Ao aperceber-se que a carreira em finanças não dava um sentido de missão, apesar das vantagens no foro financeiro, decidiu sair da empresa e criar uma empresa de música, a STAGE, em que o plano é ajudar talento (artistas) a ser descobertos e pagos de forma mais apropriada. Um grande foco tem sido o desenvolvimento pessoal, trabalhando com um coach e uma psicóloga, e lendo bastante além de se tentar desafiar no dia-a-dia a sair da zona de conforto!
Qual foi a melhor parte do seu curso? E a mais desafiante?
A melhor parte, em termos de utilidade futura, é o facto de o cérebro ter sido testado ao limite, porque apesar de no curso de Matemática Aplicada ainda haver uma componente teórica bastante pesada na altura em que o fiz, o facto é que para quem faz o curso, quando comparado com pessoas que vêm de cursos mais práticos noutros faculdades, nota-se uma diferença crucial, que é o facto de termos aprendido a pensar num sentido mais geral e, com isso, mesmo que nos apareça algo que ainda nunca vimos, acabamos a aprender com uma rapidez incrível. No fim de contas, o curso em si até ser bastante teórico acabou por não ser uma desvantagem, mesmo para quem acaba na indústria.
Em que atividades extracurriculares esteve envolvido?
Fiz parte da equipa de Ténis oficial do Técnico.
Pode falar-nos um pouco sobre o início do seu percurso profissional?
Eu comecei a minha carreira numa empresa de apostas desportivas, porque era algo em que já há anos que fazia dinheiro mesmo a título individual, e acabei depois a tornar-me mesmo trader profissional, tendo acabado a gerir um portfolio de $300M aquando da minha estadia na blockchain.com. Note-se que eu sempre estive no ramo das apostas desportivas, era onde me tinha focado a vida toda, mas trading é mais uma questão de controlo psicológico que outra coisa, e portanto foi-me fácil transitar das apostas para trading em cripto moedas. Tive de estudar bastante, naturalmente, mas isso foi algo que decidi que fazia sentido para diversificar a lista das minhas áreas de especialidade, ainda mais sendo a blockchain o futuro da tecnologia!
Fale-nos um pouco sobre o trabalho que está a desenvolver atualmente.
Pelo facto de ter chegado aos 30 anos com estabilidade financeira garantida através da profissão de trader, e não querendo ser ingrato relativamente a esse caminho por essa mesma razão, a verdade é que trading por si só não gera valor ao mundo, e em 2020 tive a sorte (a sorte também se conquista, e a verdade é que tive a curiosidade de entrar nesta aventura) de conhecer um coach, que em teoria me ia ajudar a ser um líder melhor, mas desde cedo entendi que liderança tem tudo a ver com o core da pessoa, e portanto acabei a embarcar numa jornada em que desafiei tudo o que sempre tinha achado ser verdade, e aprendi imenso sobre mim próprio. Ganhar mais consciência foi sem dúvida o que de mais importante me aconteceu nos últimos anos, e acabei a decidir deixar para trás essa área para criar um negócio de música em que a ideia é garantir que artistas conseguem ter o seu talento reconhecido e serem pagos apropriadamente pelo seu trabalho, algo que não acontece nos dias de hoje. Neste momento, é esse o meu foco, além de ser mentor de algumas pessoas a nível mais pessoal e que acaba por naturalmente incluir o profissional; isto é algo que quero fazer de forma mais global a longo prazo.
Quais têm sido os grandes desafios da sua carreira?
No contexto da pergunta acima, a questão de ter mais consciência permitiu-me entender que grande parte das dificuldades vêm de nós próprios. Tem sido complicado corrigir alguns dos maus hábitos que já vem de trás porque o ser humano tem a tendência de redirecionar a causa dos problemas quando essa causa vem deles próprios. Temos muita dificuldade em admitir as nossas falhas, e criar realidades alternativas na nossa cabeça para a narrativa encaixar e nunca encararmos essas mesmas limitações. Portanto no fim de contas, lutar com a minha própria cabeça, lidar com necessidade de validação pelos outros, ou com o síndrome de impostor, ainda mais tendo passado de alguém completamente técnico para posições de liderança, são alguns exemplos! Um exemplo interessante também é, ainda relacionado com ter sido técnico a vida toda, ter dificuldade em dar prioridade a delegar comparado com tomar iniciativa e querer resolver tudo sozinho, que é muitas vezes a abordagem errada quando se quer liderar e ensinar.
Quais são os seus planos para o futuro?
Enquanto uma pessoa se focar só nela própria, a felicidade será relativa. Passamos a vida a tentar melhorar a nossa situação e ser validados, porque achamos que finalmente seremos felizes, e quando estamos nesse modo, acabamos a passar pela vida sem sequer a viver. Eu tenho sido o exemplo vivo disso pela forma como fiz o meu percurso sem muitas vezes desfrutar da jornada. Tem sido uma lição importante destes últimos anos, e tento cada vez mais ter a certeza que desfruto do que faço, e também que a minha missão se baseia em serviço, porque se o foco não sair de mim, a energia e motivação será sempre baseada no ego e não genuína. O meu plano é lutar contra as desigualdades de oportunidades, todos deviam ter a mesma possibilidade independentemente da sua família ou de onde nascem. É algo bastante utópico mas que me faz acordar de manhã com vontade de alterar o estado das coisas; por isso mesmo me tenho envolvido em coaching, e dando prioridade a pessoas com menos condições. A longo prazo, quero escalar esse processo.
Que conselhos daria aos estudantes atuais?
Sejam pacientes e confiem no processo. Devem sempre questionar se estão no caminho certo, mas quando tiverem a certeza que estão a fazer o que realmente gostam, devem focar a energia e confiar que algo de bom resultará disso, sendo que sei bem como, enquanto estudantes, a tendência seja para não termos noção do que pode resultar desse sofrimento e luta que faz parte do caminho, e seja por vezes mais fácil desistir. Mas é muito importante tirar o tempo para pensar a sério se estão a fazer algo que é o que realmente sentem ter paixão em fazer, porque desistir pode ser a melhor solução em certos casos, quando isso implicar ir na direcção certa, e na sociedade facilmente as pessoas têm medo da mudança, também por esse rótulo associado a 'desistir', mas essas são as pessoas mais corajosas no fim de contas (quando isso fizer realmente sentido).
Que conselhos daria aos estudantes do ensino secundário que estão a pensar em estudar STEM, particularmente no Técnico?
É sem dúvida uma área extremamente promissora nos dias de hoje, mas como dito acima, é super importante que a pessoa saiba que é mesmo isso que gosta. Se for, sem dúvida, estudar no Técnico abrirá muitas portas e deixará a pessoa preparada de uma forma em que teria tudo para ser um profissional de excelência.
De que mais se orgulha na sua vida?
Ter tido a capacidade em 2020 de abrir os olhos e questionar, mesmo quando isso implicava mudar coisas que estavam totalmente intrínsecas e confortáveis na minha vida (e ainda muitas mais existem para ser alteradas!). Estava completamente focado num plano específico que simplesmente leva as pessoas a mais poder e dinheiro, através da carreira em finanças (trading), mas entender que a felicidade é o mais importante, e para isso é preciso termos como primeira missão o serviço aos outros, acabou a mudar tudo. E ainda mais importante foi entender que para o fazermos, o primeiro passo é sempre focarmo-nos em mudar interiormente, daí o foco que tenho posto no desenvolvimento pessoal (foi aliás por ter começado que a minha mentalidade se alterou desta forma).
Tem uma citação ou frase favorita?
'O segredo da felicidade não está em procurar mais, mas em desenvolver a capacidade de estar bem com menos'. Curiosamente, esta mentalidade pode levar-nos a conseguir bem mais mesmo na prática, com a diferença de que será feito com uma energia diferente, mais genuína.
